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Casos de leite adulterado no RS

13 de maio de 2013

Olá pessoal, quanto tempo! Na verdade, queria ter escrito sobre isso há quatro dias atrás, mas acabei não conseguindo e o blog ficou uma semana sem posts novos (peço desculpas por isso). Uma coisa boa de escrever sobre alimentos é que, sempre que eu começo a ficar sem ideias, alguma coisa acontece e eu volto a ter assunto: Na semana passada, tivemos o caso dos leites adulterados no RS, apresentando não apenas adição de água, mas também ureia agrícola, o que o torna um perigo à segurança alimentar. Vou colocar aqui minha opinião sobre o assunto.

leite_adulterado_RS

………………………………………………………………………………………………………………………………..

 

Primeiramente, gostaria de salientar que, infelizmente, a notícia é verdadeira. Mas não podemos agir com alarmismo: o problema foi localizado no RS, nas marcas Mu-Mu, Líder, Latvida e Italac, e apenas em certos lotes específicos (você pode conferir a lista completa aqui: http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2013/05/ministerio-publico-faz-operacao-contra-adulteracao-de-leite-no-rs.html ). Ou seja, não cortem o leite de suas dietas para sempre porque “ele contém xixi” – como as pessoas estão dizendo por aí – apenas deixem de consumir os produtos desses lotes específicos.

O que aconteceu foi o seguinte: os transportadores, para aumentar o volume de leite comercializado (e ganhar mais dinheiro), adicionavam água ao leite cru. E, aliás, essa água não era nem tratada, o que já representaria um problema de higiene por si só (o que só não é tão grave pelo fato de que o leite seria processado termicamente em seguida). Até aqui nada de novo: essa é talvez a fraude alimentar mais velha que existe e seria facilmente identificável em análises rotineiras simples, como: densidade, crioscopia (=ponto de congelamento), extrato seco ou teor de proteínas – o qual é determinado pela quantidade do elemento químico nitrogênio.

Justamente para disfarçar esses efeitos, os adulteradores também adicionavam ureia agrícola ao produto, que é um composto utilizado como adubo, pelo seu alto teor de nitrogênio. Dessa forma, o leite cru não apenas tinha seu valor inicial de densidade restaurado, como também o de nitrogênio, conseguindo mascarar a adição de água nas principais análises feitas no recebimento do leite cru. A ureia também apresenta uma certa basicidade, a qual pode ser empregada para balancear uma acidez excessiva do produto, indicadora de baixa qualidade microbiana Apesar de geralmente associarmos a ureia à urina (da qual ela de fato faz parte), o que dá uma impressão de falta de higiene e toxicidade, o produto não apresentaria tantos riscos à saúde humana na quantidade adicionada, representando mais um problema ideológico do que de segurança.

Na verdade, o próprio leite cru já tem naturalmente um certo teor de ureia (já que a mesma é um subproduto do metabolismo dos bovino), o qual é muito variável e depende de fatores como raça, dieta e idade do animal leiteiro. Além disso, a ureia agrícola é um produto sintético, não proveniente de urinas animais e relativamente seguro para seu uso em adubação. O grande problema é que a ureia comercial não é 100% pura, mas contém certa quantidade de formol (=metanal ou formaldeído), o qual é intrínseco da produção do composto. Diferentemente da ureia, o formol é completamente forâneo ao leite e extremamente tóxico e cancerígeno (e até inflamável), mesmo em pequenas quantidades. Além disso, o composto não é destruído durante o tratamento térmico na indústria – portanto, eis aqui o verdadeiro vilão à segurança alimentar nesses leites adulterados.

Nessa estória toda, eu queria deixar bem claro que a fraude não foi feita nem pelos produtores e nem pela indústria (que costumam ser demonizados pela mídia), mas sim pelos transportadores de leite cru. Algumas pessoas apontaram que acham um absurdo as indústrias não detectarem a adulteração nas análises da matéria-prima, mas é preciso entender que as determinações específicas de formol e ureia em leite cru não são análises simples nem comuns, e dificilmente são feitas pelas indústrias (tanto que quem identificou foi o SIF). Além das análises rotineiras que eu expliquei anteriormente, são feitas determinações de acidez, gordura, e contagem de micro-organismos, todas incapazes de identificar a fraude.

Esse caso me lembrou bastante aquele do leite Parmalat em 2008. Na ocasião, o leite estava com alta contagem de micro-organismos e os fraudadores adicionavam ao leite cru: soda cáustica para neutralizar a acidez excessiva; água oxigenada para eliminar os micro-organismos; água para aumentar o volume e disfarçar o sabor; e sacarose para corrigir o efeito da água na densidade. É claro que essa adulteração foi mais fácil de se identificar. O que eu achei melhor no caso mais recente foi que as investigações foram extremamente objetivas e sigilosas, apenas revelando o resultado após tudo estar concluindo e resolvido, evitando atitudes precipitadas, confusões e alarmismos da população.

Fontes:

– Detalhes do caso: http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2013/05/industria-nao-faz-teste-para-detectar-nivel-de-ureia-no-leite-diz-especialista.html

– Sobre detecção de ureia em leite: http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2013/05/industria-nao-faz-teste-para-detectar-nivel-de-ureia-no-leite-diz-especialista.html

– Análises rotineiras de leite cru: http://www.fiemg.org.br/admin/BibliotecaDeArquivos/Image.aspx?ImgId=10686&TabId=3376&portalid=97&mid=11476 e http://www.bento.ifrs.edu.br/site/midias/arquivos/2012429101512203camilafachinelli.pdf

– Mais sobre ureia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ur%C3%A9ia

– Mais sobre formol: http://pt.wikipedia.org/wiki/Formol

 

PS: Não fiz esse post para defender, de forma alguma, adulterações em nenhum alimento. Simplesmente quis explicar melhor a lógica da fraude e expor quem são os verdadeiros culpados no caso.

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6 Comentários
  1. Serei generalista agora: no final das contas, acabamos caindo no embate entre lucro versus qualquer outra coisa (saúde, sociedade, qualidade, etc.)… tem gente que não pensa em nada, apenas no próprio bolso!!!
    Eu realmente vi coisas meio alarmistas sobre o leite e nada explicando direito, com exceção do seu post. Fico sempre impressionada com a clareza com que vc expõe os argumentos, alguns até bem técnicos, mas não tem como não entender depois de ler!!!!!!

    • Obrigado, Nate!
      Se você tiver alguma dúvida em algum argumento especificamente muito técnico, posso te explicar melhor!

  2. Menchik, eu jah ia comentar e voce escreveu no post: O que eu tinha ouvido falar era sobre ter formol no leite. Li a materia toda e fiquei achando que o bichinho apareceria apenas nos boatos, daih no grand finale tava ele lah, todo pimposo mesmo. Brincadeiras a parte, voce escreve muito bem, e me esclareceu algumas duvidas,e surgiram outras ( que eu ja vinha tendo). Essa questao sobre o leite me fez lembrar do leite canadense, que eh extremamente ralo e mais incolor do que o nosso leite. Fazendo pesquisas, vi que o leite do Canada eh extremamente limpo. Mas gostaria de saber ateh que ponto consideram essa limpeza. Tem tambem um comentario que ouco muito das pessoas de roc;a, que afirmam que “leite bom eh leite de ro;ca, olha soh como o leite industrializado eh ateh mais ralo e nem forma nata!” Gostaria de saber se isso procede.
    No mais, parabens pelo blog!!!

    • Nossa, Pri, seu comentário daria até um outro post 🙂
      Vou pesquisar sobre o leite canadense e depois te respondo melhor.

    • Então Pri, o caso de o leite UHT não formar nata é realmente o que o Valdir explicou (aliás, obrigado pela participação). O leite da roça pode ser até mais gostoso, já que o processamento acarreta em mudanças sensoriais e até nutricionais. Entretanto ele é bem menos seguro, já que o tratamento térmico serve justamente para eliminar os micro-organismos deteriorantes e patógenos do produto, aumentando sua vida de prateleira.
      Como foi dito, a qualidade e aparência do leite depende muito de fatores como raça, idade e alimentação do animal. No Canadá, além desses fatores, eles têm uma cadeia do leite muito bem desenvolvida, com altíssimos padrões de produção, transporte, industrialização e armazenagem. Isso gera sim um produto mais limpo. Outro fator é que eles costumam tomar leite pasteurizado lá, em vez de UHT, que tem diferença de sabor.

  3. Valdir Spaniol permalink

    Em relação ao leite ser mais ralo depois de industrializado não procede. O que ocorre é que no porcesso de industrializaçao do leite UHT é a homogeneização (quebra dos globulos de gordura do leite), o que faz com que a gordura não aglutine mais, assim nao forma mais a “nata”. Na industrialização é feita a padronização de gordura para minimo 3% no leite integral. Se comparar com leite da vaca de algumas raças, podes ter leite com 4 a 5% de gordura. A cor do leite tambem muda de acordo com o ano, devido aos pigmentos presentes principalmente nas flores do pasto, principalmente os carotenoides.
    Em relação a fraude, infelizmente ela ocorre de vez em quando e nao temos leis duras (ex seria a china que pune com pena de morte), e é muito dificil controlar, mas quando cai na imprensa os fraudadores e as empresas que industrializam tem grande prejuizo economico pq suas marcas sao detonadas.

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