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Batatas são Tóxicas para o Ser Humano?

Resolvi postar sobre esse tema porque parece ser algo que causa bastante dúvida entre os consumidores. Veja um exemplo de texto:

<< A batata inglesa, o tomate, a berinjela e o pimentão são vegetais pertencentes à família das solanáceas, categoria que inclui plantas tóxicas como o tabaco e a beladona. Sabe-se que a solanina enfraquece o sangue, dilata o aparelho digestivo e provoca distúrbios no estômago e intestinos, levando inclusive ao surgimento de hemorróidas. Além disso, a batata contém ainda altos índices de potássio, o que compromete seu uso como alimento regular.

Por serem muito expansivas (yin), as solanáceas, quando consumidas por aqueles que ainda fazem uso de carnes (yang), podem trazer uma sensação momentânea de bem-estar. Com o tempo, porém, seus efeitos deletérios manifestar-se-ão inevitavelmente. […]

Não é necessário abandonar o consumo de batata-inglesa, mas procure substituí-la por inhame, cará, batata-doce, batata-baroa, aipim, mandioquinha…. >>

 


 

Bom, vamos lá: a batata-inglesa (Solanum tuberosum) realmente é da mesma família que o os vegetais listados no texto, que produzem o glicoalcalóide solanina como parte de um mecanismo de defesa contra doenças, insetos e outros predadores. A solanina realmente é tóxica para o organismo humano, e não é destruída por processos como cozimento. Os principais sintomas de sua ingestão são diarreias, vômitos e outros problemas gastro-intestinais. Em geral, são produzidas maiores quantidades do composto quando a planta está doente ou na fase de brotamento, justamente para proteger a nova muda – e é por isso que devemos evitar comprar batatas brotadas (conforme expliquei no fim do post sobre orgânicos). Outras ocasiões em que o tubérculo produz a solanina são: quando sofre cortes, amassados e machucados (principalmente durante armazenamento e transporte); ou quando é exposta ao sol, tornando-se verde (por conta da produção de clorofila).

Entretanto, vale lembrar que uma batata madura, saudável e íntegra (ou seja, fora das condições acima citadas) possui baixos níveis de solanina e é perfeitamente segura para o consumo humano. Inclusive, os produtores utilizam o defensivo agrícola “bud nip” justamente para inibir a germinação das raízes durante a distribuição. Também é importante notar que alguns dos substitutos apontados no texto, como certas variedades de mandioca, possuem cianetos que também são tóxicos – e só podem ser eliminados após cozimento e/ou fermentação por várias horas (citei isso no post da canola). Já em relação ao potássio, o texto está incorreto: 100 g de batatas possuem menos de 10% do requerimento diário do mineral, o qual é um nutriente de extrema importância para o metabolismo humano. Além disso, ele está concentrado principalmente na casca do tubérculo, que costuma ser retirada.

No tocante às dúvidas relacionadas à armazenagem de batatas, é mais uma questão sensorial: deve-se evitar armazenar em temperaturas baixas (=geladeira) pois essas promovem a degradação do amido em açúcar, tornando o alimento mais doce e duro – então melhor guardar em local ameno, arejado e ao abrigo da luz – e isso vale para praticamente qualquer produto que contenha bastante amido. Falando nisso, existe um outro ponto de atenção em relação às tubérculos e cereais: a acrilamida, um subproduto de Reação de Maillard, formado pela reação de certos açúcares com aminoácidos a temperaturas acima de 120°C. O composto já foi identificado como potencial carcinogênico e causador de problemas de fertilidade. Por isso, deve-se evitar consumir batatas e mandiocas fritas em excesso, assim como pães, biscoitos e outras massas muito torradas ou assadas (identificadas pela coloração marrom-escura/preta não-característica).

 

Fontes:

 

 

Bananas com Manchas Anti-Câncer

O mito de hoje me foi mandado pelo Facebook esses dias, na forma de meme, que parece ser a nova tendência das hoaxes da internet :

banana manchas

banana manchas


 

Trata-se de mais um mito de alimentos que curam câncer (veja outros exemplos aqui). A própria banana comercial já tem também sua cotinha de polêmicas: é uma híbrida genética, já que o fruto natural “selvagem” é assim, e é levemente radioativa por causa do isótopo 40 do potássio (mas não se preocupe, são emanações inofensivas para a saúde, assim como as de certos tipos de água mineral). Existe inclusive uma lenda urbana que diz que a casca de banana pode ser fumada utilizada para clarear os dentes, a qual não é apenas mentira, como também perigosa! Mas vamos ao que interessa: a publicação acima não cita fontes, nem data, nem nome do cientista / universidade (o último estudo científico japonês – afinal eles não fazem muitos né?). Tive que pesquisar um pouco, mas não é que dessa vez havia mesmo o tal estudo original? É esse aqui, segue uma análise preliminar:

O estudo não diz que as bananas contêm TNF (fator de necrose tumoral). Aliás, isso seria bizarro praticamente impossível, já que trata-se de uma proteína bastante específica do sistema imunológico de vertebrados, e não tem nenhuma relação com a fisiologia de vegetais. O que os autores fizeram foi injetar extrato de banana em ratos, o que gera uma reação natural do corpo de produzir TNF para defesa, da mesma maneira como faria para qualquer outro corpo estranho. Isso está bem longe de um estudo clínico com humanos que tivessem ingerido as frutas e, mesmo se o composto estivesse presente, ele seria digerido e quebrado em aminoácidos, perdendo sua funcionalidade (expliquei um pouco disso no post do frango com hormônio).

O que os cientistas de fato constataram foi que, quanto mais madura a banana, maior a resposta do sistema imune como um todo. Isso pode estar relacionado também com a maior quantidade de precursores de dopamina e serotonina nos frutos, que são hormônios com diferentes efeitos no metabolismo humano – inclusive estimular alguns leucócitos (células brancas do sangue) a produzirem diversas proteínas de defesa. As manchas escuras são apenas um indicador da maturidade (e da variedade) do fruto, e não “pocinhas de TNF”. E mesmo se fossem: quase ninguém come a casca da banana, e estudos seriam necessários para ver qual a quantidade suficiente para que isso tivesse algum benefício perceptível, sem atingir um patamar em que os efeitos colaterais do excesso de TNF pudessem se manifestar – tais como doenças auto-imunes, asma, psoríase, etc.

Por outro lado, a banana contêm certa quantidade de anti-oxidantes e fibras, que podem ajudar na minimização do risco de desenvolvimento de alguns cânceres específicos (note que isso é bastante diferente de dizer que “banana com mancha cura câncer”). Assim como diversas outras frutas e vegetais, é claro – e muitos deles bem mais do que a banana. Mesmo assim, existem vários benefícios nutricionais em comer o fruto (além das fibras e da energia), principalmente a quantidade das vitaminas B6 e C e dos minerais manganês, potássio, magnésio e flúor.

 

Fontes:

Ades com Gosma

O leite de soja AdeS é um produto que já carrega uma boa cota de polêmicas, principalmente pelo episódio da soda cáustica, além das controvérsias naturalmente relacionadas à própria soja. Nos últimos anos, alguns consumidores têm relatado encontrar uma espécie de “gosma” no interior das embalagens da bebida, geralmente constatada após a identificação de sabor e aroma estranhos durante sua ingestão. Os casos não são exclusividade do produto da Unilever, sendo que relatos semelhantes já foram feitos em relação a concorrentes e até mesmo para outros tipos de bebida, como néctares e sucos Del Valle (Coca-Cola) e água de coco Kero Coco (PepsiCo). Geralmente, os clientes também reclamam do atendimento ruim e descaso por parte das empresas, que alegam não ter culpa e não apresentam soluções satisfatórias aos requerimentos.


 

Bom, vamos à pergunta inicial: O que é essa gosma? Algumas pessoas pensam se tratar de um corpo estranho adicionado (intencionalmente ou não) durante o processamento das bebidas: talvez um pano, papel ou plástico ou até uma mortadela. Essa possibilidade é completamente nula, já que as indústrias empregam o sistema de envase da TetraPak, no qual todos os filtros e aberturas têm dimensões milimétricas que impossibilitariam a entrada de um objeto desse porte. Na verdade, a “gosma” é uma colônia de fungos, que pode se desenvolver posteriormente, a partir de um único esporo microscópio. Mesmo assim, o envase é feito de forma completamente hermética, no qual a bebida sobre tratamento térmico a altas temperaturas e as embalagens são esterilizadas com peróxido de hidrogênio, evitando qualquer contaminação microbiana. Então a empresa realmente tem razão ao dizer que isso não ocorreu durante a fabricação.

Isso nos leva à próxima pergunta: como e quando esse fungo entra no produto? As embalagens da TetraPak são muito interessantes por serem uma combinação de papel, polietileno e alumínio, que juntos proporcionam um recipiente funcional que serve como barreira à luz, à umidade, às trocas gasosas (principalmente entrada de oxigênio) e aos micro-organismos. Isso desde que estejam intactas, é claro. Infelizmente, eu trabalhei pessoalmente tanto com embalagem quanto com estoque e distribuição de bebidas cartonadas, e posso atestar que não há o devido cuidado no manuseio dos produtos, fazendo com que sofram quedas e choques desnecessários. Algumas vezes, essas batidas podem gerar micro-furos em uma ou mais camadas das “caixas de suco”, imperceptíveis a olho nu, porém grandes o suficiente para a passagem de um esporo fúngico. E isso é algo que pode ocorrer desde a própria armazenagem na empresa até o uso pelo consumidor, passando pelo varejista e toda a cadeia distribuidora.

E qual o problema nisso? Quando o esporo chega no interior da bebida, ele se encontra num ambiente úmido, escuro, sem predadores nem competidores, e cheio de açúcar – condições ideais para o crescimento e multiplicação dos fungos. Aos poucos, esses vão fermentando o açúcar do produto e gerando ácidos, álcoóis e outros compostos, o que explica o gosto e odor esquisito do líquido. Na verdade, o micro-organismo não é patogênico (ou seja, não traz riscos a saúde), mas sim deselegante deteriorante, pois acaba com a qualidade sensorial e nutricional do produto. Fazendo mal ou não, ninguém quer ter que conviver com um bolor nesse alimento, então deve-se sim fazer uma reclamação formal e exigir uma posição da empresa. Ainda que ela não tenha culpa diretamente, é responsável por todos seus produtos vendidos e tem que agir junto a seus parceiros distribuidores e varejistas para tentar minimizar esse tipo de ocorrência.

O que mais a empresa pode fazer? Infelizmente, não muito. Ao lermos a lista de ingredientes do AdeS, vemos que há aditivos como acidulantes, estabilizantes e aromatizantes – mas nada de conservantes, o que o torna mais suscetível a essa contaminação no caso de um eventual micro-furo. Ou seja, se os consumidores pedem por produtos cada vez mais livres de aditivos da indústria química, eles têm que estar preparados para certas consequências dessa ausência – igual quando compramos certos vegetais orgânicos e nos deparamos com larvas de insetos. É preciso “colocar na balança” o que é preferível: alguns poucos casos com fungos deteriorantes ou todas as bebidas com algum tipo de composto com função preservativa, como o benzoato de sódio? Em relação à embalagem, o sistema de envase da TetraPak já é um dos mais modernos, seguros e consolidados no mundo inteiro (apesar de certas lendas urbanas) – sendo difícil pensar em qualquer mudança que possibilite uma melhoria expressiva nesse sentido.

Como lidar? Ainda que tenhamos uma meia dúzia de casos na mídia, isso ainda pode ser considerado um problema pontual diante das milhares de bebidas cartonadas produzidas no Brasil – então deixar de consumi-las por esse motivo me parece um tanto drástico (mas existem outros). O ideal é sempre checar as caixas do fundo à tampa, evitando comprar produtos cujas embalagens estejam violadas, amassadas e/ou rasgadas, principalmente quando tiver líquido vazado visível. Consuma o produto sempre dentro do prazo de validade e atente às recomendações de temperatura e local de armazenagem, indicadas no rótulo. Caso esteja desconfiado, abra o alimento e despeje o líquido numa jarra transparente, verificando também o interior da embalagem esvaziada. Se sentir sabor ou aroma estranhos, melhor suspender o consumo e comunicar à empresa responsável pelo produto, ou até mesmo ao Procon.

 

Fontes:

<< Caro Pedro,

 Abaixo seguem as respostas da Tetra Pak às suas perguntas.

A presença de um corpo estranho em um produto processado e envasado em sistemas da TetraPak não é possível. Durante o processo de tratamento térmico o alimento passa por um filtro com orifícios de diâmetro entre 1 a 3 milímetros. Antes do envase o produto ainda passa por um sistema de válvulas, cuja abertura é inferior 1,0 cm. A embalagem, por sua vez, antes de receber o produto, passa por uma banheira de peróxido de hidrogênio a 70°C onde é completamente lavada, esterilizada e passa por rolos espremedores cuja folga é inferior a 4 mm. O transporte do produto do tratamento térmico até o envase acontece em sistema hermeticamente fechado, sem qualquer contato com o ambiente externo.  O sistema de envase asséptico é  desenvolvido para impedir a penetração de qualquer corpo estranho, inclusive microrganismos de dimensões inferiores a milésimos de milímetro. Lembramos ainda que o sistema possui dispositivos que impossibilitam a produção diante de falhas que venham a comprometer a qualidade do produto.  Finalmente, ressaltamos que em muitos casos o produto pode passar por um equipamento de homogeneização onde é forçado a passar por uma abertura de 0,1 mm, a uma pressão de aproximadamente 200 bar.

Os sistemas de processamento e envase asséptico de bebidas da Tetra Pak foram desenvolvidos para garantir a esterilidade comercial do alimento. Isso significa que após o tratamento térmico e envase asséptico encontram-se  livres de microorganismos patogênicos ou deteriorantes  capazes de se desenvolverem em condições normais de não refrigeração, mantidas durante a distribuição e a estocagem. Desta forma, a bebida mantém suas propriedades nutricionais, em segurança, durante seu prazo de validade até que seja aberto. As tecnologias de processamento térmico e envase asséptico estão há muito consolidadas e são utilizadas pelas indústrias de alimentos em todo o mundo, que oferecem diariamente uma grande quantidade de produtos seguros aos consumidores.

A embalagem longa vida da Tetra Pak é composta por papel, plástico e alumínio. Tais elementos não foram escolhidos ao acaso. Sua combinação impede a entrada de luz, água, ar e microorganismos, mantendo as características originais dos alimentos como sabor, valores nutricionais e aromas. De dentro para fora: são duas camadas de polietileno que evitam qualquer contato do alimento com as demais camadas protetoras da embalagem. Uma camada de alumínio, cuja função é evitar a passagem de oxigênio, luz e microorganismos, e uma quarta camada de polietileno. A quinta camada é de papel que confere resistência à embalagem, além de receber a impressão com as informações de rotulagem e finalmente, uma sexta camada de polietileno, que protege contra umidade externa. IMPORTANTE: a integridade da embalagem é fundamental para a manutenção da condição de esterilidade comercial do produto. Caso haja algum rompimento das camadas protetoras da embalagem, o alimento pode sofrer contaminação.

Com relação aos corpos estranhos encontrados em embalagens, nada se pode afirmar sem uma análise detalhada desses produtos. O consumidor deve entrar em contato com a indústria produtora para que essa possa dar uma resposta, após analisar não apenas o produto mas, os dados sobre o lote da produção a que ele pertence. 

Permanecemos à disposição.

Atenciosamente,

Andreza Rodrigues >>

Top Comidas com Ingredientes Humanos (ou quase isso)

Bom, antes de começar esse post, deixem-me explicar um pouquinho sobre o processo criativo do blog. Eu tenho um arquivo de Word onde eu listo sugestões e ideias para futuros textos. Algumas vêm da minha própria cabeça, baseadas em lendas que escuto por aí, notícias, correntes da internet e até em coisas que aprendi durante a graduação. Outras são sugestões de amigos, leitores e colegas de profissão. Aos poucos, vou passando pelos itens da lista e escolhendo alguns temas que têm potencial para virar post; pesquiso melhor e começo a escrever. Estou tentando matar todas as sugestões atuais de amigos antes de viajar em agosto para os EUA, onde ficarei por 4 anos fazendo um doutorado, e talvez não tenha tanto tempo para postar. Eis que peguei a lista esses dias e li o seguinte tema: canibalismo! O post a seguir foi o mais próximo que consegui escrever sobre o assunto😛, e também será a estreia da categoria “listas” do blog.

 


#3: Cerveja de Barba. A Rogue Ales é uma cervejaria bastante divertida e criativa. Ao que parece, estavam tentando criar uma nova linhagem de leveduras para produzir uma belgiam ale especial, mas nenhuma amostra era satisfatória. De brincadeira, eles mandaram um pedaço da própria barba do mestre cervejeiro da empresa, John Maier, para análise…e não é que tinha um bom exemplar do micro-organismo justamente ali nos fios crescidos há mais de 30 anos? Eles procederam com o cultivo da levedura a partir da barba e criaram o produto beard beer, que inclusive já está disponível no Brasil. Ok, não é exatamente algo feito de uma parte humana como ingrediente (me lembrou um pouco do diamante feito do cabelo do Pelé), mas mesmo assim alguns podem achar meio asqueroso. Já eu confio nos procedimentos de higiene da empresa e experimentaria se tivesse a chance. Deve ser bem melhor que qualquer cerveja de milho. Fonte: All Beers.

#2: Queijo de Pé e Axilas. Cientistas dos EUA e da Noruega embarcaram nesse projeto baseadas nos famosos “queijos com cheiro de chulé” que encontramos por aí. Coletaram bactérias de regiões “fedorentas” (leia-se: pés e axilas) de alguns artistas, cientistas e outras personalidades, para criar onze variedades diferentes de queijo (falando em laticínios e bactérias humanas, quem se lembra da hoax do Activia com fezes?). Nesse caso, o foco foi apenas na pesquisa em si, e o produto não foi liberado para consumo. Para se tornar algo mais comercial, necessitaria de procedimentos adequados de segurança alimentar. Ok, confesso que, mesmo nesse cenário, a ideia é um pouco nojenta demais até para mim e tenho minhas dúvidas se experimentaria o produto ou não. De qualquer maneira, é mais um caso de algo feito de micro-organismos encontrados em humanos, e não dos próprios de fato. Fonte: Exame.

#1 Sorvete de Leite Materno. A iguaria foi criada pela rede bizarra de sorveterias londrina The Icecreamists, feita a partir de leite materno pasteurizado, baunilha e limão. O produto, batizado de “Baby Gaga“, é o único caso comercial de um alimento realmente envolvendo (intencionalmente) fluidos corporais de um ser humano. Apesar de a matéria-prima sofrer um tratamento térmico, o sorvete teve sua venda suspensa sob a alegação de que ainda faltam testes mais aprofundados para avaliar seus efeitos na saúde. Antes disso, a sobremesa era vendida pela bagatela de 14 libras e foi aprovada pelos consumidores, se tornando uma sensação em Londres. Acho que esse eu provaria (se não fosse tão caro!), desde que sua inocuidade e higiene sejam comprovadas nas análises laboratoriais. Enquanto isso, outras mães andam curtindo a ideia e fazendo sorvetes caseiros de leite materno para dar aos seus bebês. Fonte: BBC Brasil.

PS: Não incluí o caso da bebida feita com sêmen humano, pois trata-se de uma hoax. Você pode ver uma análise detalhada da estória no E-farsas.

Miojo com Cera do Mal

Hoje vamos analisar mais uma daquelas hoaxes que existem há mais de 10 anos, populares nas correntes do Hotmail e renascidas nos compartilhamentos em massa do Facebook. Essa é bem especial  porque nem sequer tiveram o trabalho de inventar uma historinha, uma faculdade x e um professor y, então a gente nem vai precisar ficar procurando outras características típicas de hoax – a falta de assinatura, data e de fontes já nos basta (crédito para o autor: pelo menos essa é uma corrente breve e objetiva, uma raridade!). Chequem a pérola:

 

hoax do miojo

hoax do miojo

 


 

 

Para começar, o macarrão instantâneo (vulgo miojo) não tem nenhum tipo de cera em sua composição. Ao ler um exemplo de lista de ingredientes, podemos encontrar aditivos como corantes, estabilizantes, realçadores de sabor e anti-umectantes – mas nenhum tipo de cerídeo ou agente glaceante. O motivo pelo qual ele “não gruda” (e essa afirmação é bem relativa – conheço gente que consegue fazer grudar) é que ele passa por uma secagem em óleo fervente (mais conhecido como fritura) durante seu processamento, e é exatamente isso que o torna desidratado e instantâneo – aliás, o produto também pode ser consumido direto antes da fervura, pois não está “cru”. De forma semelhante, é comum adicionarmos azeite durante o preparo do macarrão tradicional, para evitar que grude e dar mais sabor.

Mitos sobre alimentos cancerígenos existem aos montes, mas achei legal o autor apontar “o câncer” como se fosse uma doença específica, tipo “a tuberculose” – câncer de quê, cara pálida? O que existe, de fato, é a intoxicação por parafina, que pode causar sintomas como dores abdominais, náuseas, vômitos e constipação intestinal – o que está bem longe de câncer e do miojo, de qualquer forma (acho que acontece quando você come uma vela por acidente, ou algo assim). Na verdade, o problema do macarrão instantâneo é um só, simples e extremamente comum em diversos alimentos: a alta quantidade de sódio. Conforme eu já expliquei nos posts do caldo de carne e da soja, o consumo do mineral em excesso pode gerar certos agravantes à saúde, especialmente a hipertensão.

Para ser justo, existem sim alguns alimentos que utilizam certas ceras como aditivo, principalmente como impermeabilizante ou agente glaceante, porém essas são compostos específicos de pureza controlada para uso seguro em alimentos, aprovados pelas legislações nacionais e internacionais – e não oferecem nenhum risco à saúde humana. Os principais exemplos são a cera de abelha, a carnaúba e a goma-laca (que eu citei no post do carmim de cochonilha), utilizadas principalmente na superfície de produtos como balas, chicletes, doces e até mesmo queijos. Mas não no miojo.

 

Fontes:

Opinião: Soylent

O post de hoje será um pouco diferente: em vez de esclarecer algum mito ou polêmica envolvendo alimentos, vou dar a minha opinião sobre um novo produto do mercado, o Soylent. Antes de mais nada, quero adiantar que não sou médico e nem nutricionista, e esse texto será mais um ponto de vista pessoal sobre o assunto (mais ou menos como foi o do hambúrguer de laboratório) do que realmente uma análise científica.

Para quem não sabe, o Soylent é um produto inovador, desenvolvido nos EUA pelo empreendedor Rob Rhinehart, que consiste num substituto integral de refeições contendo (supostamente) todos os nutrientes necessários para o dia-a-dia de um ser humano. Mais do que um suplemento, o produto foi concebido como alternativa aos alimentos tradicionais, o qual poderia acabar se tornando a principal (ou até única) fonte de nutrição humana num hipotético futuro distópico no qual não existiria mais comida na forma como a conhecemos hoje. Enquanto (ou se) esse estranho futuro não chegar, as pessoas fariam uso do Soylent com os seguintes objetivos: maximizar a saúde, economizar dinheiro (custaria em torno de US$5,00 por dia) e tempo (por não ter que comprar ingredientes, cozinhar, lavar louças, etc) – o qual poderia ser utilizado para várias outras coisas, incluindo trabalho e lazer.

Eu já prefiro encará-lo como a evolução da infame ração humana (ainda que muito melhor pensada): trata-se de uma mistura de pós – contendo carboidratos, proteínas, vitaminas e minerais – acompanhada de uma parte líquida em separado, contendo lipídeos. O usuário deve bater as duas partes com água para obter uma espécie de “shake”, o qual irá substituir todas as refeições diárias. O produto atingiu uma popularidade tão alta que começaram a aparecer até receitas caseiras de Soylent na internet. Parece, inclusive que existe um projeto para tornar sua fórmula “open source“, com a interatividade dos usuários para a modificarem a gosto, ou algo do gênero*.

Eu parabenizo o esforço e a criatividade empreendedora da iniciativa e, como todo bom engenheiro de alimentos, amo transformar comidas em pós simpatizo bastante com produtos que alinham nutrição, praticidade, conveniência e custo. Porém acho que o Soylent está numa ponta aguda do espectro do futuro dos alimentos (a outra ponta seria a tendência orgânicos-veganos-sem glúten-cultivados por tribos). E, como todo extremo, ele pode ser perigoso. O fato é que ainda não existem estudos a longo prazo sobre uma dieta baseada exclusivamente no produto (e nem teria como, já que ele é novo).

Ainda assim, o Soylent apresenta sua cota de polêmicas. Algumas delas são decorrentes das próprias controvérsias envolvendo soja (da qual, apesar do que sugere o nome, tem muito pouco no produto) e o óleo de canola – mas já tratei das duas em posts anteriores. O alimento já tem até mesmo sua própria lenda urbana envolvendo carne humana como ingrediente, decorrente da associação com o filme Soylent Green, dos anos 70 (nem preciso entrar nessa discussão, né?).

Vou expor aqui algo um pouco mais sério: um estudo feito em ratos que se alimentaram exclusivamente com dietas em pó – e desenvolveram problemas de saúde como hiperglicemia e alta pressão sanguínea. Isso ocorre, em linhas gerais, porque a mastigação dos alimentos sólidos (aqui eliminada) é uma etapa preliminar da digestão, que prepara o resto do processo, estimulando a secreção de enzimas, ácidos e hormônios como a insulina, fundamentais para a absorção gradual dos nutrientes pelo organismo. De qualquer forma, o estudo não foi feito especificamente com Soylent nem com humanos, o que inviabiliza uma correlação mais fundamentada (e, de qualquer forma, a mastigação poderia ser emulada com o uso de artifícios como chicletes). Eu citei isso para atentar para o fato de que somos adaptados para a digestão de alimentos sólidos e complexos, e imagino que a eliminação de barreiras físico-químicas naturais possa promover o desuso de certos músculos (como os do maxilar) ou mesmo favorecer a diminuição da produção de algumas enzimas. Isso tem o potencial de se tornar perigoso caso alguém siga uma dieta 100% de Soylent por algum tempo e depois tente retomar os alimentos tradicionais.

Além disso, é importante notar que pessoas diferentes possuem requerimentos nutricionais diferentes, dependendo da idade, sexo, etnia, altura, peso, grau de atividade física, gravidez, clima, entre outros. Isso sem contar pessoas que possuem alguma enfermidade ou condição alimentar, como certas alergias. Também vale lembrar que os estudos sobre nutrição são muito dinâmicos, e cada vez mais se descobrem compostos essenciais (e outros nem tanto) ao organismo, sobretudo potenciais oligominerais, como o arsênio. Ou seja, ainda não sabemos, exatamente, de tudo que o organismo precisa.

Apesar de não existirem muitos estudos científicos relevantes, existem alguns casos pessoais e anedóticos, tanto a favor do produto (vide vídeo na página oficial) quanto contra. Dos casos contrários, algumas pessoas relataram que, após consumirem o produto de forma regular, não observaram nenhuma melhora de índices como peso e % de gordura – além de ficarem irritadiças e com fome. Outras relataram efeitos colaterais como inchaço, gases e diarreia – que podem ter causas semelhante às que eu expliquei no post dos gummy bears. Já os casos a favor relatam melhorias palpáveis na saúde, como perda de peso (ou de gordura), maior disposição, pele mais saudável, etc.

Mudando um pouco o foco do post: apesar de a nutrição ser um aspecto fundamental da alimentação, ela não é o único. O fato é que existe um grande prazer sensorial no ato de comer, no qual as pessoas se deliciam não apenas com os diferentes sabores e aromas dos alimentos, mas também com a textura, o aspecto visual e até auditivo (percebido na crocância, por exemplo). A perspectiva de substituir toda refeição por uma dieta líquida é – pelo menos para mim – um pouco assustadora. E ainda tem o fator rotina: mesmo que o sabor seja bom, ele iria acabar enjoando eventualmente, e a falta de variedade poderia tornar o hábito quase impossível (eu já tenho um pouco dessa dificuldade com suplementos alimentares). Diz-se que o Soylent é capaz de matar a fome, mas talvez ele não consiga eliminar a vontade de comer – são duas coisas diferentes. No tocante à economia de tempo, existem outras alternativas que não demoram muito mais que bater algo no liquidificador, como fazer um sanduíche.

Além do prazer e da gula, as refeições também têm todo um aspecto social, podendo servir como momento de socialização com familiares, colegas e amigos. No trabalho, a “hora do almoço” pode funcionar como um momento de descanso e descontração em meio ao estresse do dia-a-dia. Sair para jantar é considerado por muitos como opção de lazer (uma das minhas favoritas) ou como encontro amoroso. Para os amadores da culinária, cozinhar pode ser um hobby e até uma terapia; já para os profissionais, é arte e ofício. Do ponto de vista cultural, a gastronomia pode ilustrar vários aspectos de um povo, seus ingredientes e seus costumes. De uma certa forma, a popularização do Soylent como substituto integral das refeições ameaça tudo isso. Afinal, nós não comemos apenas por necessidade.

Dito isso, acredito que a necessidade fale mais alto para algumas situações específicas, como bolsões de pobreza ou regiões escassez de alimentos em geral; refugiados; militares em campo de batalha; e até mesmo astronautas. Penso que, para esses casos, o Soylent seja uma ótima alternativa para as refeições tradicionais. Já para o resto de nós, só o consideraria esporadicamente para alguns momentos de pressa, e não como substituto integral da boa e velha comida🙂 .

*eu realmente não entendi direito como isso funciona, por isso não entrei em mais detalhes. Precisaria pesquisar mais sobre o assunto.

 

Fontes:

 

Frango com Hormônio

Esse é mais um daqueles posts que as pessoas vivem me pedindo e que eu vinha enrolando para fazer. Já citei o assunto de forma mais superficial no post do chester, mas agora resolvi escrever algo mais elaborado sobre o tema: Existe um boato muito conhecido de que os frangos de corte são alimentados com hormônios que promovem o seu crescimento rápido, presente não apenas na internet, mas no dia-a-dia de maneira tão forte que vai desde as filas do supermercado até as salas de espera de consultórios médicos. Isso atingiu proporções tão absurdas que as pessoas passaram a encará-lo como verdade, fazendo com que a BRF (Sadia; Perdigão) e a Aurora tivessem que fazer propagandas específicas falando que seus frangos não tem hormônios. O problema é que, quando a Fátima Bernardes vira e diz que o frango dela é criado sem adição de hormônios, isso dá uma falsa impressão de que os produtos de outras marcas não o são (ou que isso era prática comum num passado recente). Mas não é bem assim.

Na verdade, nenhum frango nacional é adicionado de hormônios, já que isso é proibido por lei no Brasil. Se você é daqueles que não confia na fiscalização e inspeção federal, saiba que o Brasil é um dos maiores exportadores de aves do mundo, e que possui clientes como EUA, Europa e Japão, os quais também têm leis impedindo a prática e são extremamente rigorosos no controle de resíduos de hormônios em alimentos. Na verdade, a confusão acontece porque existem outros animais (como peixes e bovinos) nos quais se pode injetar/alimentar com certos tipos de hormônios em países como os EUA – dentro de níveis seguros ao consumo humano, é claro. Então não, as meninas de hoje não estão entrando na puberdade mais cedo e nem se maquiando porque consomem muito “frango com hormônio” desde bebês – isso e uma bobagem.

Mas então, por que os frangos de granja crescem tão rápido quando comparados à “galinha caipira”? O principal fator que explica isso é o melhoramento genético (vide post sobre transgênicos), visto que variedades de frango vêm sendo selecionadas ao longo de dezenas de anos a fim de se desenvolver animais com maior produtividade de carne possível – eu gosto muito de fazer uma analogia com as diferentes raças de cachorro, guardadas as proporções. Outro motivo é a nutrição, sendo a alimentação dos animais controlada de forma que eles se desenvolvam de maneira rápida, saudável e visando o aumento de massa muscular em regiões como peito e coxas, compatível com sua genética. Temos também fatores como ambiente, manejo, higiene e sanidade, todas aperfeiçoadas após anos de pesquisa intensa, visto que o frango de corte é um dos produto cárneos mais consumidos e estudados do mundo.

Nesse sentido, um suposto hormônio de crescimento soaria mais como uma pílula milagrosa “à la Polishop” (que nem esses produtos charlatões de emagrecimento que vemos na televisão). O fato é que muitos estudos apontam que injetar dito hormônio no frango não funciona, já que o crescimento depende de diversos outros fatores devido à complexidade do metabolismo animal. Mesmo se isso funcionasse, traria mais danos do que benefícios aos animais, pois as aves já foram justamente selecionadas para crescer beirando seus limites fisiológicos e, se forçadas muito além disso, poderiam desenvolver problemas nas articulações ou mesmo insuficiência cardíaca, gerando eventuais mortes – que representariam prejuízos aos produtores. Temos mais um porém: hormônios são extremamente caros (qualquer pessoa que faça tratamento hormonal vai entender o que eu estou falando): 5 mL podem custar em torno de R$200,00, o que é muito mais do que o preço do próprio frango.

Além disso, o hormônio de crescimento é uma proteína e deve ser injetada na corrente sanguínea para ter efeito, pois se for ingerida na ração, será digerida e decomposta (e não terá efeito nenhum) – é por isso que não existem “pílulas de insulina”, por exemplo. Imaginem o quão inviável seria para um grande produtor injetar o composto em centenas de milhares de aves, várias vezes ao longo de suas vidas – e ainda conseguir controlar isso. Na verdade, os únicos hormônios que funcionam se consumidos oralmente são os esteróides, utilizados por algumas pessoas como anabolizantes; porém, esses dependem de atividade física intensa para dar resultado. Lembrem-se que o frango confinado é bastante sedentário e não exercita o voo, como já vimos em outro post. Ou seja, o uso de anabolizantes na ração não faria crescer o peito da ave, que é justamente um dos principais objetivos da avicultura.

Queria deixar claro uma coisa: não estou falando que os frangos não têm hormônios! Todos os animais superiores têm um sistema hormonal ativo: os compostos ocorrem naturalmente, sendo produzidos em certos órgãos-chaves, transportados pelo sistema circulatório e podendo se acumular em depósitos de lipídeos. Apesar de a carne em si ser músculo, é muito comum que ela contenha parcelas de gordura, as quais podem trazer alguns hormônios naturais – mas isso não é motivo de preocupação. Por exemplo, 100 g de gordura de frango têm em torno de 2 ng de estrogênio, que é muito menos que a quantidade presente na mesma porção de batata (225 ng) ou de sorvete (520 ng). Na verdade, uma criança do sexo masculino antes da puberdade (que é o tipo de ser humano que menos fabrica o hormônio) produz  em torno de 41500 ng de estrogênio por dia. Ou seja, ele teria que comer uma quantidade absurda de frango diariamente para que o hormônio em sua dieta tivesse qualquer efeito em sua saúde.

Por fim, queria abordar de leve algumas outras diferenças que as pessoas costumam apontar entre o frango de granja e a galinha caipira, além da questão do crescimento. A primeira é a quantidade de gordura – que é maior na ave criada de forma extensiva, tanto pela questão genética quanto pelo fato de essa galinha ser abatida mais velha, fazendo com que os músculos de sua carcaça tenham menor porcentagem de água (e, consequentemente , mais gordura) – assim como ocorre com diversos animais, incluindo o homem. Outro ponto é a questão sensorial: o sabor, o aroma, a textura e a cor das aves podem variar muito. Isso também está relacionado aos aspectos anteriores, mas aqui a nutrição faz bastante diferença: a galinha caipira consome alimentos como milho e alfafa no lugar de ração, o que faz com que sua carne fique mais amarelada e com sabor característico. Por ser mais velha e ativa, seus músculos também ficam mais firmes, podendo se refletir numa textura mais dura que a do frango industrializado.

 

Fontes:

Alimentando a Discussão

Desvendando polêmicas, mitos e boatos sobre alimentos

Mercado Engenharia

Estatísticas sobre o mercado de trabalho para engenheiros recém-formados no Brasil

deepinsidetanzania

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