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Activia com Fezes Humanas

13 de março de 2013

Esse e-mail estava na moda na época em que o Activia começou a fazer sucesso:

<< A verdade sobre o Activia.
Afinal, o que é Activia?
O que são os bacilos DanRegularis?
“Bifidobacterium animalis é uma bactéria anaeróbica gram-positiva encontrada nos intestinos de animais de grande porte, inclusive humanos.”
Qual seria então a fonte para se obter o famoso DanRegularis?
NÃO, você não está enganado. São as FEZES HUMANAS., SIM, SIM E SIM!
Mas o absurdo não para aí.

“Muitas empresas têm tentado registrar subespécies específicas como uma técnica de marketing,renomeando estas subespécies com rótulos pseudo-científicos.”

A Danone (Dannon) protocolou como marca registrada a cepa DN 173.010, e comercializa o organismo nomeando-o de:
Bifidus Digestum (Reino Unido),
Bifidus Regularis (EUA e México),
Bifidubacterium Lactis ou B.L. Regularis (Canadá),
DanRegularis (Brasil) e Bifidus Artiregularis
(Argentina, Áustria, Bulgária, Chile, Alemanha, Itália, Irlanda, Romênia, Rússia e Espanha).

Cientificamente, o nome correto desta cepa é Bifidobacterium animalis subsp. animalis, strain DN-173.010.

O motivo pelo qual a bebida láctea Activia ajuda na digestão é o simples fato de que a bactéria adicionada pela Danone pertence a uma cepa mais irritante para a mucosa intestinal, que ao entrar em contato trata de expelir o mais rapidamente possível o material fecal.

Sejamos honestos. É saudável, a longo prazo, acostumar o sistema digestivo (ou mais modernamente, sistema digestório) humano a somente funcionar pela introdução de um material irritante/estimulante? Isso não seria viciar o organismo? Não seria mais coerente consumir mais fibras e menos pão branco, o verdadeiro culpado pelos problemas intestinais?

Alimento probiótico, eles dizem… Até quando vamos ser ingênuos (ou seria mais correto otários) de acreditar cegamente em propagandas e em campanhas de marketing??

A bebida láctea contendo Bifidobacterium animalis sp vem sendo comercializada pela Danone pelo mundo afora desde 1990, mas somente no Brasil tiveram a cara-de-pau de colocar o nome da marca Danone (DanRegularis) no nome científico registrado.

Mas, sinceramente, prefira as verduras ao leite de cocô doce.

EM OUTRAS PALAVRAS, A TAL DE BEBIDA LÁCTEA TEM MERDA MESMO!!!!!! 

Marília C. Duarte
(Nutricionista)
São Paulo – SP  >>

activia_fezes

…………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………

Ok, vamos embora comentar essa “denúncia”:

Esse é um caso de notícia em que existe uma fonte, a tal da nutricionista paulista Marília C. Duarte. Ao pesquisar mais sobre ela na internet, não encontrei nenhuma publicação, menção, nem nada que não fossem reproduções ou versões do texto acima. Inclusive, não há ninguém com esse nome inscrito no Conselho Regional de Nutricionistas de São Paulo. Desconfio que a tal nutricionista nem sequer exista. Mesmo que ela de fato seja real, o texto atribuído a ela parece bastante anti-profissional e coloquial. Lembrando também que nutricionistas não têm formação especializada sobre a produção de alimentos, mas sim sobre seus efeitos no corpo humano.

Posto isso, queria explorar a ambiguidade da frase: “O que são os bacilos DanRegularis? Bifidobacterium animalis é uma bactéria anaeróbica gram-positiva encontrada nos intestinos de animais de grande porte, inclusive humanos” – que é a tese central do texto. A bactéria mencionada é de fato encontrada no intestino humano, mas isso não quer dizer que essa seja sua procedência no tocante à fabricação do iogurte. Ou seja, é o mesmo tipo de bactéria, mas não literalmente a mesma bactéria. Seria equivalente dizer algo do tipo: “A água que bebemos é constituída dos mesmos compostos que compõem 90% da urina de rato” (ou seja, H2O). Esses jogos de palavras muitas vezes nos levam à interpretações errôneas.

Para deixar mais claro: no intestino humano existem diversos micro-organismos (é a famosa flora intestinal*), os quais vivem em simbiose conosco, contribuindo na digestão de alguns alimentos que temos dificuldade e protegendo contra patógenos invasores, como certos coliformes. Às vezes, nossa flora intestinal está desequilibrada (faltam micro-organismos benéficos e sobram indesejáveis) e podemos ter problemas intestinais ou mesmo doenças graves. A proposta do iogurte é justamente repor uma quantidade de Bifidobacterium animalis  no organismo para re-estabelecer esse equilíbrio, o que fará com que o intestino passe a funcionar com mais regularidade.

Mas se não são provenientes de fezes, da onde vem as bactérias do iogurte? Micro-organismos tão específicos como os do Activia ou do Yakult (os famosos lactobacilos vivos) são obtidos em laboratório, a partir da replicação em meio de cultura estéril, selecionados geneticamente à perfeição de acordo com a característica desejada (já que há muita variabilidade dentro de uma mesma espécie de bactéria). Mesmo porque, imaginem como seria inviável o procedimento a partir de fezes humanas: coletar os excrementos, separá-los do esgoto, identificar a bactéria desejada e conseguir transportar e armazenar quantidade suficiente dessa, além de ter que garantir que todos os micro-organismos sejam sempre idênticos e gerem o mesmo resultado (já que a taxa mutação em bactérias é muito acelerada).

Eu gostaria de ressaltar também que todos os iogurtes têm bactérias, afinal elas fazem parte de seu processo de fabricação, a fermentação do leite, na qual transforam a lactose (açúcar do leite) em ácidos e aldeídos que conferem o sabor e aroma do produto. Aliás, micro-organismos são utilizados (eu diria mais: indispensáveis) no processamento de diversos alimentos, como queijos, pães, cárneos, bebidas e condimentos, entre outros. E é claro que todos esses alimentos devem estar de acordo com a legislação regulatória (Anvisa e MAPA, no caso do Brasil), não apresentando riscos à saúde humana.

Voltando ao texto, temos a alegação de que a bactéria em questão irritaria a muscosa intestinal, fazendo expelir a fezes mais rápido. Na verdade, ela faz quase o contrário: coloniza a mucosa, protegendo o local de micro-organismos patógenos (esses sim irritantes). Além disso, não é possível “se viciar em uma bactéria”, como diz a autora, a não ser que ela produza algum composto que cause dependência, o que não é o caso. Não vou questionar a importância de consumir fibras e fazer exercícios físicos (todos sabemos como essas práticas são benéficas – e não apenas para o funcionamento do intestino), mas uma ação vantajosa não substitui e nem invalida a eficácia de outra.

Para finalizar, existe outra versão da corrente que traz uma notícia sobre a proibição da propaganda do Activia pela Anvisa (vide fontes). Isso de fato ocorreu, mas o motivo era outro: a veiculação do iogurte como se fosse um tratamento para a prisão de ventre. Por mais que o iogurte contenha probióticos e traga benefícios à saúde do consumidor, ele não é um medicamento, e não pode ser interpretado como substituto de ajuda médica especializada. Lembrando que se houvesse algum problema referente à higiene do produto, a Anvisa impediria sua comercialização, e não a propaganda.

Fontes:

Sobre probióticos: http://www.nutritotal.com.br/perguntas/?acao=bu&categoria=27&id=468

Sobre a Bifidobacterium animalis : http://en.wikipedia.org/wiki/Bifidobacterium_animalis [em inglês]

Conselho regional de nutricionistas: http://www.crn3.org.br/atualidades/newsletter_vis.php?cod_mail=233

Notícia sobre proibição da propaganda: http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u416847.shtml

*O termo correto é microbiota intestinal, já que flora se refere a um grupo de seres do reino vegetal. Entretanto, o termo antigo é ainda muito utilizado.

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11 Comentários
  1. Muito bom, eu já tinha ouvido essa “lenda” e é incrível como essas coisas (“notícias”) se espalham rápido por e-mail!

    Gostei especialmente da parte em que você desconstruiu o texto e mostrou o jogo de palavras e a comparação com a urina do rato foi ótima!!!!!!

  2. Muito bom, Menxique. Nada como uma opinião especializada e bem fundamentada pra ir contra essas lendas absurdas que a gente recebe por e-mail. O texto ficou ótimo =)

    E só pra deixar registrado: meu intestino é um reloginho, não preciso de Activia u.u
    huahua, quando eu tomo, é mais pelo gosto que pelo efeito…porquem, definitivamente, ele não é um laxante.

  3. Valeu meninas!

  4. Li o título e tive que checar o resto do texto. Algumas dúvidas que você posta aqui são muito pertinentes porque abordam lendas que até fazem certo sentido…mas outras, sério, não consigo entender como as pessoas acreditam!!! Fezes humanas? Esses e-mails são tão mal feitos e trazem teorias tão absurdas. Fico pensando quem perde tempo para escrevê-los…será a concorrência que espalha para atingir a massa da clientela? hahaha Ótimo texto, adoro as fundamentações!

  5. É Gus, mas infelizmente nem todas as pessoas são tão racionais como você. A minha avó já me perguntou uma vez se essa notícia era verdade, e já vi muita gente com curso superior compartilhando isso no facebook.
    A origem dos hoaxes podem ser diversas: ex ou atuais funcionários insatisfeitos com a empresa, concorrentes (esse tiro pode sair pela culatra, pois produtos semelhantes podem sofrer com o mesmo boato), lobby do tipo protecionista, má-interpretação de notícias, ou mesmo gente que não tem nada para fazer e quer audiência através do sensacionalismo.

  6. Cintia Kawasaki permalink

    Mto esclarecedor. Adoro a maneira como vc escreve e fundamenta os argumentos. =)

  7. Flávia permalink

    Ótimo argumento! Também acho que a autora da denúncia não é nutricionista, pois além da falta de postura, não sabe nada de microbiologia.

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