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Opinião: Soylent

2 de junho de 2014

O post de hoje será um pouco diferente: em vez de esclarecer algum mito ou polêmica envolvendo alimentos, vou dar a minha opinião sobre um novo produto do mercado, o Soylent. Antes de mais nada, quero adiantar que não sou médico e nem nutricionista, e esse texto será mais um ponto de vista pessoal sobre o assunto (mais ou menos como foi o do hambúrguer de laboratório) do que realmente uma análise científica.

Para quem não sabe, o Soylent é um produto inovador, desenvolvido nos EUA pelo empreendedor Rob Rhinehart, que consiste num substituto integral de refeições contendo (supostamente) todos os nutrientes necessários para o dia-a-dia de um ser humano. Mais do que um suplemento, o produto foi concebido como alternativa aos alimentos tradicionais, o qual poderia acabar se tornando a principal (ou até única) fonte de nutrição humana num hipotético futuro distópico no qual não existiria mais comida na forma como a conhecemos hoje. Enquanto (ou se) esse estranho futuro não chegar, as pessoas fariam uso do Soylent com os seguintes objetivos: maximizar a saúde, economizar dinheiro (custaria em torno de US$5,00 por dia) e tempo (por não ter que comprar ingredientes, cozinhar, lavar louças, etc) – o qual poderia ser utilizado para várias outras coisas, incluindo trabalho e lazer.

Eu já prefiro encará-lo como a evolução da infame ração humana (ainda que muito melhor pensada): trata-se de uma mistura de pós – contendo carboidratos, proteínas, vitaminas e minerais – acompanhada de uma parte líquida em separado, contendo lipídeos. O usuário deve bater as duas partes com água para obter uma espécie de “shake”, o qual irá substituir todas as refeições diárias. O produto atingiu uma popularidade tão alta que começaram a aparecer até receitas caseiras de Soylent na internet. Parece, inclusive que existe um projeto para tornar sua fórmula “open source“, com a interatividade dos usuários para a modificarem a gosto, ou algo do gênero*.

Eu parabenizo o esforço e a criatividade empreendedora da iniciativa e, como todo bom engenheiro de alimentos, amo transformar comidas em pós simpatizo bastante com produtos que alinham nutrição, praticidade, conveniência e custo. Porém acho que o Soylent está numa ponta aguda do espectro do futuro dos alimentos (a outra ponta seria a tendência orgânicos-veganos-sem glúten-cultivados por tribos). E, como todo extremo, ele pode ser perigoso. O fato é que ainda não existem estudos a longo prazo sobre uma dieta baseada exclusivamente no produto (e nem teria como, já que ele é novo).

Ainda assim, o Soylent apresenta sua cota de polêmicas. Algumas delas são decorrentes das próprias controvérsias envolvendo soja (da qual, apesar do que sugere o nome, tem muito pouco no produto) e o óleo de canola – mas já tratei das duas em posts anteriores. O alimento já tem até mesmo sua própria lenda urbana envolvendo carne humana como ingrediente, decorrente da associação com o filme Soylent Green, dos anos 70 (nem preciso entrar nessa discussão, né?).

Vou expor aqui algo um pouco mais sério: um estudo feito em ratos que se alimentaram exclusivamente com dietas em pó – e desenvolveram problemas de saúde como hiperglicemia e alta pressão sanguínea. Isso ocorre, em linhas gerais, porque a mastigação dos alimentos sólidos (aqui eliminada) é uma etapa preliminar da digestão, que prepara o resto do processo, estimulando a secreção de enzimas, ácidos e hormônios como a insulina, fundamentais para a absorção gradual dos nutrientes pelo organismo. De qualquer forma, o estudo não foi feito especificamente com Soylent nem com humanos, o que inviabiliza uma correlação mais fundamentada (e, de qualquer forma, a mastigação poderia ser emulada com o uso de artifícios como chicletes). Eu citei isso para atentar para o fato de que somos adaptados para a digestão de alimentos sólidos e complexos, e imagino que a eliminação de barreiras físico-químicas naturais possa promover o desuso de certos músculos (como os do maxilar) ou mesmo favorecer a diminuição da produção de algumas enzimas. Isso tem o potencial de se tornar perigoso caso alguém siga uma dieta 100% de Soylent por algum tempo e depois tente retomar os alimentos tradicionais.

Além disso, é importante notar que pessoas diferentes possuem requerimentos nutricionais diferentes, dependendo da idade, sexo, etnia, altura, peso, grau de atividade física, gravidez, clima, entre outros. Isso sem contar pessoas que possuem alguma enfermidade ou condição alimentar, como certas alergias. Também vale lembrar que os estudos sobre nutrição são muito dinâmicos, e cada vez mais se descobrem compostos essenciais (e outros nem tanto) ao organismo, sobretudo potenciais oligominerais, como o arsênio. Ou seja, ainda não sabemos, exatamente, de tudo que o organismo precisa.

Apesar de não existirem muitos estudos científicos relevantes, existem alguns casos pessoais e anedóticos, tanto a favor do produto (vide vídeo na página oficial) quanto contra. Dos casos contrários, algumas pessoas relataram que, após consumirem o produto de forma regular, não observaram nenhuma melhora de índices como peso e % de gordura – além de ficarem irritadiças e com fome. Outras relataram efeitos colaterais como inchaço, gases e diarreia – que podem ter causas semelhante às que eu expliquei no post dos gummy bears. Já os casos a favor relatam melhorias palpáveis na saúde, como perda de peso (ou de gordura), maior disposição, pele mais saudável, etc.

Mudando um pouco o foco do post: apesar de a nutrição ser um aspecto fundamental da alimentação, ela não é o único. O fato é que existe um grande prazer sensorial no ato de comer, no qual as pessoas se deliciam não apenas com os diferentes sabores e aromas dos alimentos, mas também com a textura, o aspecto visual e até auditivo (percebido na crocância, por exemplo). A perspectiva de substituir toda refeição por uma dieta líquida é – pelo menos para mim – um pouco assustadora. E ainda tem o fator rotina: mesmo que o sabor seja bom, ele iria acabar enjoando eventualmente, e a falta de variedade poderia tornar o hábito quase impossível (eu já tenho um pouco dessa dificuldade com suplementos alimentares). Diz-se que o Soylent é capaz de matar a fome, mas talvez ele não consiga eliminar a vontade de comer – são duas coisas diferentes. No tocante à economia de tempo, existem outras alternativas que não demoram muito mais que bater algo no liquidificador, como fazer um sanduíche.

Além do prazer e da gula, as refeições também têm todo um aspecto social, podendo servir como momento de socialização com familiares, colegas e amigos. No trabalho, a “hora do almoço” pode funcionar como um momento de descanso e descontração em meio ao estresse do dia-a-dia. Sair para jantar é considerado por muitos como opção de lazer (uma das minhas favoritas) ou como encontro amoroso. Para os amadores da culinária, cozinhar pode ser um hobby e até uma terapia; já para os profissionais, é arte e ofício. Do ponto de vista cultural, a gastronomia pode ilustrar vários aspectos de um povo, seus ingredientes e seus costumes. De uma certa forma, a popularização do Soylent como substituto integral das refeições ameaça tudo isso. Afinal, nós não comemos apenas por necessidade.

Dito isso, acredito que a necessidade fale mais alto para algumas situações específicas, como bolsões de pobreza ou regiões escassez de alimentos em geral; refugiados; militares em campo de batalha; e até mesmo astronautas. Penso que, para esses casos, o Soylent seja uma ótima alternativa para as refeições tradicionais. Já para o resto de nós, só o consideraria esporadicamente para alguns momentos de pressa, e não como substituto integral da boa e velha comida 🙂 .

*eu realmente não entendi direito como isso funciona, por isso não entrei em mais detalhes. Precisaria pesquisar mais sobre o assunto.

 

Fontes:

 

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2 Comentários
  1. Achei muito legal o post!
    Eu ia falar justamente da questão da COMIDA: vê-la, tocá-la, mastigá-la, sentir sabores, texturas e aromas diferentes, pra mim isso também é fundamental! (Acho que nem precisamos esclarecer isso, já que nossas jantinhas falam por si sós!)
    Também gostei da distinção entre fome e vontade de comer. Isso é real!
    “Você tem fome de quê?”

  2. Comer como opção principal de lazer +1

    Depois reclamo que tô gorda 😛

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