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A Verdade Sobre a Canola

7 de maio de 2014

Quando me sugeriram esse tema da primeira vez, achei que era algo meio sem-graça e desconhecido. Só depois que eu fui ver a quantidade de textos sensacionalistas e alarmistas que existem sobre este assunto na internet! E todos eles sem nenhuma fonte, é claro. Segue aqui um trecho como exemplo:

<< Azeite de Oliva vem das azeitonas. Óleo de girassol vem das sementes de girassol. Mas o que é canola? A Canola é na realidade, uma palavra inventada para um produto geneticamente modificado, transgênico.

É infelizmente uma invenção canadense subsidiada pelo governo. Os subsítidos (sic) tornam o produto muito barato, por isso quase todos os alimentos processados ou embalados contém óleo de canola. Comece a ler os rótulos e checar os ingredientes. Entenda o porque (sic):

Óleo de canola é desenvolvido a partir de uma planta chamada colza, que pertence à família da mostarda. Estes óleos tem (sic) sido utilizados para fins industriais (velas, batons, sabonetes, tintas, lubrificantes e biocombustível). É um óleo industrial, e não um alimento!

O óleo de colza é a fonte por trás do gás mostarda, que pode nos causar enfisema, dificuldade respiratória, anemia, constipação, irritabilidade e cegueira. Mas através da beleza da modificação genética, nós agora vendemos este óleo como uma (sic) óleo comestível.

A alegação sobre a canola ser segura para consumo é que através da modificação genética ela deixa de ser colza, e passar (sic) a ser canola. Mas a canola é apenas a colza geneticamente modificada. O óleo de canola passou a ser comercializado como um óleo maravilhoso, com baixos níveis de gorduras saturadas e com um ótimo aporte de ômega 3.

Acredita-se que a colza tenha efeito cumulativo, e que seus sintomas levam cerca de 10 anos para começar a se manifestar. Um possível efeito à longo prazo seria a destruição do revestimento de proteção no cérebro, em torno dos nervos, chamado bainha de mielina […] >>

 


 

Bom, eu cortei o restante do texto porque começa a falar um monte de besteira sobre transgênicos (incluindo coisas como a não-obrigatoriedade de rotulagem – oi?) – o que, aliás, é uma das principais críticas da internet sobre a canola e seu óleo. Não vou me aprofundar nesse sub-tópico pois já tenho um post exclusivo falando sobre isso de forma mais completa. Só vou esclarecer uma coisinha: as primeiras variedades de canola foram feitas por cruzamentos inter-espécie, seleção e melhoramento de sementes, afinal nem existia engenharia genética nos anos 70 (só muito posteriormente é que entrou a transgenia mais “laboratorial” para aumentar a produtividade, semelhante ao que aconteceu com o milho e a soja). Lembrando que vários alimentos que comemos são transgênicos nesse primeiro sentido – um bom exemplo é a banana comercial, já que o fruto original é cheio de sementes e não-comestível.

A canola é na verdade um cultivar específico de colza (Brassica napus), uma planta semelhante à mostarda, especialmente desenvolvido para aproveitamento do óleo de suas sementes. A colza original já era utilizada há muito tempo como óleo combustível, ganhando força durante a revolução industrial. Entretanto, ela apresenta grandes quantidades de ácido erúcico, um composto potencialmente tóxico para a saúde humana (apesar de haver evidência apenas em certos animais, e de certas populações asiáticas o consumirem em suas dietas). Exatamente por isso, foi feito um melhoramento genético a fim de se desenvolver uma variedade com menos de 2% desse ácido em relação ao total de ácidos graxos, para que seu óleo pudesse ser utilizado com segurança para consumo humano. Ou seja, todos os “malefícios” apontados devido a esse composto não se aplicam ao óleo de canola.

O nome canola realmente é uma palavra inventada (CANadian Oil Low Acid – justamente por ter baixo nível de ácido erúcico), e é um daqueles casos em que uma marca acaba se tornando sinônimo do produto, como “cotonete” ou “durex”. A mudança de nome não foi feita apenas para diferenciar da planta original, mas também como uma jogada de marketing, já que o nome da semente em inglês (rapeseed) remete a algo ruim – pois rape significa “estupro”. De qualquer forma, é importante lembrar que o Canadá – origem e maior produtor do óleo – é um dos países com legislação mais rigorosa no tocante à saúde e segurança de alimentos. O óleo de canola apresenta comprovadamente altos teores de ômega-3 e ômega-6, e existem inúmeros estudos de seus efeitos nutricionais benéficos. Inclusive, o FDA (órgão regulador dos EUA) aprova várias alegações de saúde relacionadas à canola.

Outra falsa afirmação do texto é que o gás mostarda seria derivado da colza. Na verdade, esse gás é sintetizado industrialmente através de dicloreto de enxofre e etileno, dentre outros métodos. O nome do agente é devido a sua coloração amarelo-amarronzada e seu odor pungente que lembra plantas do gênero Brassica, como a própria mostarda e a raiz-forte. Aliás, segundo a lógica do autor, você não poderia comer nenhum vegetal desses ou seus derivados – que incluem não apenas a mostarda e a colza, mas também alimentos como repolho, brócolis e rabanete. Mesmo que o gás fosse derivado da colza, esse argumento também não funcionaria: o que faz algo ser tóxico é a dose alta, geralmente obtida após várias etapas de concentração, separação e isolamento. Uma analogia pode ser feita com as sementes de papoula (comestíveis) e seus derivados: ópio e morfina (alucinógenos).

Além disso, é relativamente comum que cultivares diferentes (transgênicos ou não) de uma mesma espécie apresentem toxicidades diferentes. Um bom exemplo é o aipim (consumido com frequência no Brasil) versus a mandioca-brava, que contém altas quantidades do veneno ácido cianídrico – e só pode ser consumida após muitas horas de cozimento. Aliás, esse é um dos motivos pelos quais se faz melhoramento genético de plantas: no caso da colza, não somente temos uma semente mais segura ao consumo humano, como também eliminamos parte dos glicosinolatos que conferem sabor pungente e amargo ao produto. Isso faz com que o refino industrial do óleo seja mais brando e barato, minimizando a utilização de processos agressivos e solventes potencialmente perigosos aos trabalhadores e meio ambiente – isso sim uma preocupação importante para a indústria e os consumidores.

Falando em indústria, o texto também critica o fato de o óleo de colza ser utilizado em outros setores, como cosméticos e combustíveis. Lógico que não há nenhum problema nisso, e praticamente todos os óleos e gorduras vegetais têm inúmeras aplicações nas mais diversas indústrias. Posso citar alguns casos: o óleo de soja, que é muito utilizado para a fabricação de biodiesel, e a manteiga de cacau, para cosméticos (e é claro que isso não é motivo para deixar de comer chocolate). Você também pode fazer uma comparação com outros produtos como a cana-de-açúcar, que gera tanto o açúcar utilizado largamente na indústria de alimentos como o álcool, que tem aplicações em bebidas, combustíveis e produtos de limpeza. Sabem o que tudo isso que dizer? Absolutamente nada, já que cada um tem um grau de refino, pureza e concentração diferente, conforme o uso pretendido.

Por fim, algumas pessoas me perguntaram a questão da fritura, baseando-se na questão do ponto de fumaça. Apesar de existirem inúmeras tabelas disso (e as pessoas tenderem a querer escolher óleos com PF > 200°C), isso é muito subjetivo, já que essa temperatura vai depender de questões como tipo de cultivar, origem (solo e clima) e, sobretudo, grau e tipo de refino. Vale lembrar que esse parâmetro não é exatamente o ponto onde o óleo se degrada, sendo que muitos compostos voláteis sofrem decomposição a temperaturas muito menores, podendo gerar produtos indesejáveis sensorialmente ou até mesmo tóxicos – incluindo-se aqui alguns ácidos graxos livres. Aliás, a própria liberação desses ácidos acaba mudando constantemente o ponto de fumaça durante o aquecimento, invalidando ainda mais esse indicador.

Para quem come frituras esporadicamente, o tipo de óleo vai fazer uma diferença mínima, contanto que seja substituído com uma certa frequência (ou seja, não utilizar o mesmo óleo para várias frituras sucessivas). Lembrando que o número de calorias será praticamente o mesmo, variando apenas nutrientes específicos como ômega-3 ou vitamina E. Também vai do bom senso de cada um de não utilizar, por exemplo, um azeite extra-virgem premium para fritura (que será degradado e perderá suas propriedades), sendo preferido um mais básico como o óleo de bagaço de oliva  (que, inclusive, tem PF maior – para quem curte isso). Agora, se você consome alimentos fritos com muita frequência, eu me preocuparia primeiro em mudar esse hábito para depois pensar no tipo de óleo.

 

Outras Fontes:

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23 Comentários
  1. Ótimo texto, sempre quis vez um esclarecimento sobre o óleo de canola.

    • Nuno permalink

      Continua, apesar de tanta conversa a ser mais um óleo refinado. Que sempre que possível deve ser evitado. Qualquer óleo obtido por processos a quente deve ser evitado. Como se tivéssemos a consumir uma gordura já usada. Por processos a frio, só existe o azeite. Todos os outros são refinados, logo extraídos a quente.

  2. É incrível como, aos poucos, passamos a identificar as falsas afirmações (e as falácias) desses textos que circulam na internet. Tudo graças ao seu blog e às explicações claras. Só de ler o primeiro texto (retirado da net), já dá uma dor no fígado. Muita coisa mal explicada e alarmista. O desconfiômetro dispara!

    • Belém permalink

      Não finalize sua opinião ainda! Pesquise mais, leia livros com autores autênticos, lembre-se sua saúde esta em jogo. Vai saber se a pessoa que publicou isso não esta recebendo dinheiro da indústria alimentícia ou farmacológica. Os argumentos aqui apresentados são fracos para quem pesquisou mais sobre o assunto, porém para quem não pesquisa eles parecem convincentes.

      • Oi, Belém! Entendo sua preocupação, e ela é super legítima, mas neste caso em particular, conheço pessoalmente o autor do blog (e do post) há quinze anos. Tenho certeza absoluta de que ele não recebeu dinheiro de nenhuma indústria, e tem um compromisso sério com informações verdadeiras. Além disso, é graduado em de Engenharia de Alimentos por uma universidade renomada e atualmente, pesquisador (doutorando) nos EUA. Mas é só por isso que confio 100%. 🙂

      • Patricia permalink

        BELÉM, O SEU ARGUMENTO É FRAQUÍSSIMO. a RESPOSTA AQUI DADA PELO PEDRO FAZ TODO SENTIDO. EU JÁ HAVIA QUESTIONADO SOBRE ESSA FARSA DO ÓLEO DE CANOLA EM VÁRIOS POST. SOU QUÍMICA E TENHO CONHECIMENTO SUFICIENTE PARA SABER QUE O GÁS MOSTARDA NADA TEM A VER COM ÓLEO DE CANOLA, MAS NÃO PRECISA SER QUÍMICO PARA SABER QUE MUITOS ÓLEOS SÃO UTILIZADOS NA INDUSTRIAL DE COSMÉTICOS E COMBUSTÍVEIS E TAMBÉM SÃO USADOS COMO ALIMENTOS..
        Infelizmente, muitas pessoas não capazes que avaliar e questionar as inúmeras notícias falsas que saem pela net. Em um dos post em que aparece essa mentira do óleo de canola, eu questionei na mesma linha de raciocínio do Pedro. e em seguida recebi um e-mail ameaçador do dono do post. Ou seja, ao invés, do cara questionar e me provar com argumentos ele preferiu fazer ameaças e xingamentos.
        Infelizmente muitos são os ignorantes que acreditam nessas mentiras da net, como por exemplo o caso do peixe que vem da china, o caso do limão que cura cancer… são tantos absurdos.

  3. Minha mãe viu esses dias um frasco de óleo de canola no meu armário e me recomendou não usar mais porque o cultivo da canola usa muitos agrotóxicos – mais que a soja e o girassol, por exemplo. Isso é verdade? Se for, eles iriam parar no óleo após a extração?

    • Pedro Menchik permalink

      Oi Karin,
      Eu não tenho dados específicos comparando uma oleaginosa com outra em relação ao uso de agrotóxicos, mas eu diria que o cultivo de girassol e o de canola devem utilizar quantidades muito parecidas de defensivos agrícolas. Os agrotóxicos mais preocupantes são aqueles que consumimos em legumes crus e inteiros, como pimentões, tomates e etc. No caso da produção de óleo, o mesmo fica dentro do grão e, em tese, não contém agrotóxicos a não ser que entre em contato prolongado com a casaca durante a etapa de prensagem. De qualquer forma, o refino do óleo tem inúmeras etapas para remoção de componentes indesejáveis específicos, e um eventual agrotóxico presente seria provavelmente degradado/eliminado em etapas como degomagem, neutralização, branqueamento e desodorização.

      • MIcael permalink

        Pedro ouve dizer que existem dois tipos de agrotóxicos um que ao aplicá-lo fica sobre a planta e outro que ao aplica-lo a planta tem a capacidade de absorvê-lo armazenando em seus tecidos. Isso procede?

  4. Julie permalink

    Nossa Mench, tava falando com minha mãe sobre isso esses dias… eu sempre tinha ouvido falar bem do óleo de Canola (até minha mãe apoiou o uso por um bom tempo), mas recentemente ela disse que leu (não sei onde) que é preferível usar outros óleos, como o de girassol e o de milho…
    Vou passar o texto pra ela, ela vai curtir! Bem esclarecedor! =)

  5. Jackson permalink

    Essa publicação está maravilhosa. É a resposta perfeita às especulações que rolam por aí. Hoje em dia a internet está cheia de falsos artigos e comentários mentirosos sobre alguns produtos. Outro dia encontrei um amigo no supermercado e eles estava desesperado porque havia lido algo na internet sobre o óleo de canola e já não sabia o que commprar para sua familia comer. Eu disse a ele que não deveria se preocupar porque um produto não vai para o comércio assim de qualquer jeito e que existe uma regulação em cima disso. Mas ele insistiu que as pessoas estão ingerindo óleo de máquina e que todos irão morrer de câncer (risos). Muita neurose. Eu não sabia muito a respeito do tema, mas agora eu estou apto a falar com base no que li hoje. Parabén!

  6. nuno permalink

    Pequena contribuição. O azeite extra virgem é a único óleo alimentar obtido apenas por processos a frio. todas as outros girassol soja etc. são refinados a quente tal como o bagaço de oliva. assim é sempre preferível a fritura com azeite extra virgem já que seremos nós a esquenta-lo pela primeira vez. o uso do bagaço de oliva será o mesmo que usar qualquer outro óleo refinado. o azeite extra virgem não tem par. se a temperatura de fritura não for superior a 180ºc e não reutilizar noutras frituras.

  7. Angelo permalink

    Interessante. Pelo jeito mais uma lenda da internet.
    Poderia comentar este link?
    Obrigado
    https://www.puravida.com.br/oleo-de-canola-sera-que-e-saudavel-mesmo/

  8. Giuliano permalink

    Pedro, parabéns pelo post…
    Caso v. saiba, informe-nos se no Canadá existem estatísticas sobre a quantidade de usuários do óleo canola e qual é a aceitação do produto naquele país.
    Abraços.
    Giuliano.

  9. Patrícia permalink

    Gente e a semente de canola que encontramos normalmente em alimentos como, arroz com 7 grãos. Ela também nos prejudica ??/?

  10. Renan permalink

    Há um fato verídico que talvez dê combustível para tais boatos. Em 1981, milhares de pessoas na Espanha sofreram com um envenenamento suposto causado pela ingestão de óleo de colza desnaturado. Ao que parece, uma das hipóteses seria de que óleo de colza utilizável para uso industrial, portanto, possivelmente obtido a partir de variedades de colza não seguras para consumo humano, teria sido vendido como óleo apropriado para esse consumo. Alguns falam em possível contaminação do produto por pesticidas. As lesões provocadas geraram responsabilizações jurídicas, inclusive criminais Algumas referências ao fato podem ser encontradas aqui: http://elpais.com/diario/1981/06/20/espana/361836023_850215.html e em https://es.wikipedia.org/wiki/Enfermedad_de_la_colza Do ponto de vista jurídico, podem ser achadas informações em Direito Penal, Parte Geral, de Enrique Bacigalupo, lançado no Brasil pela Malheiros, e também em artigos encontráveis no Google Acadêmico: https://scholar.google.com.br/scholar?q=aceite+colza+derecho+penal&btnG=&hl=pt-BR&as_sdt=0%2C5 . O livro do Bacigalupo contém uma transcrição da sentença do caso.

  11. Vane permalink

    Parabéns pelo excelente texto!

  12. Excelente explicação, diante de tanta besteira que escrevem, sem nenhuma fonte fidedigna.

  13. Henrique permalink

    Muito interessante a explicação; parabéns pelo texto sucinto e direto. Sugiro mais pesquisa no que concerne a utilização desse mesmo óleo para tratamento de escaras e ferimentos de difícil cicatrização devido ao alto teor de vitamina E, conforme um médico me receitou, em substituição ao AGE e Dersani, bem mais caros.

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