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Água do Micro-ondas

4 de janeiro de 2014

Esse boato surgiu lá por 2010 e continua aparecendo bastante nas redes sociais. Trata-se de um experimento, feito por uma menina nos EUA, que indica que plantas regadas com água aquecida no micro-ondas (após resfriada) não se desenvolvem, ao contrário daquelas molhadas com água fervida em fogão ou com água fresca. Geralmente, vem acompanhado da imagem abaixo e de um texto imenso, que fala que os alimentos aquecidos em micro-ondas causam câncer e um milhão de problemas de saúde e de metabolismo, além de outras besteiras.

planta_micro

O texto que eu tenho está em inglês e eu não vou copiar a tradução inteira aqui, mas prometo analisar os principais pontos apresentados.


 

Em primeiro lugar: me desculpem, mas um experimento feito por uma garota da 6ª série para a feirinha de ciências não tem nenhum valor científico! O fato é que não existem publicações de nenhum cientista acreditado que conseguisse repetir esses resultados. Muito pelo contrário, várias pessoas repetiram o experimento e não observaram o mesmo efeito (algumas inclusive observaram a planta regada com água do micro-ondas crescer MAIS do que a com água fervida em panela). Na análise do e-farsas, tem um vídeo ilustrativo. No máximo, podemos notar um melhor desempenho para planta molhada com água fresca, ou seja, não aquecida por nenhum meio.

Antes de discutir melhor isso, permitam-me falar um pouco sobre como funciona o forno de micro-ondas: trata-se um dispositivo que emite radiações não-ionizantes de baixa frequência – semelhantes às ondas de rádio -, as quais fazem com que as moléculas de água vibrem, gerando aquecimento. Note que essas ondas não tem nada a ver com raios UV nem com radiações ionizantes, como raios X e gama, usados em algumas aplicações para tratamento de alimentos. (Não que alimentos irradiados façam algum mal à saúde, como eu falei num post anterior)

Perceba que apenas alimentos contendo água em certa quantidade podem ser aquecidos em micro-ondas; se colocarmos lá dentro algo completamente seco,  não irá ficar quente, não importa quanto tempo passe (faça o teste com um prato vazio e bem seco!). Ou seja, diferentemente do que o texto aponta, diferentes alimentos terão diferentes respostas ao processamento em micro-ondas, dependendo de seu conteúdo de água e das outras substâncias ali presentes que interagem com ela. Também é falso que a estrutura da água mude: ela continua sendo sempre a mesma: H2O. O que pode mudar são os componentes dissolvidos nela.

De qualquer forma, as ondas per se não têm capacidade de destruir DNA e nutrientes, mas o aquecimento pode ter. É fato que, sob certas condições de temperatura, tempo e pressão, alguns nutrientes como vitaminas e proteínas podem ser desnaturados, fazendo com que os alimentos percam parte de seu valor nutricional. E mesmo alguns compostos indesejáveis podem ser formados. Mas note que isso tudo é válido para qualquer tipo de cozimento, seja em forno convencional, elétrico, de micro-ondas, grelhas, chapas, churrasqueiras, etc. Já para os minerais (dos quais o texto fala tanto), precisaríamos de temperaturas de milhares de °C para destruí-los, o que claramente não é o caso. De fato, quando carbonizamos um alimento, praticamente tudo que sobra intacto nas cinzas são os minerais. A propósito, minerais não se tornam radicais livres: esses são provenientes de compostos orgânicos (praticamente o contrário) oxidados.

Outra coisa que o aquecimento destrói são os micro-organismos. Apesar de isso ser benéfico na maioria dos casos, não é o caso para algumas plantas que dependem do mutualismo com algumas bactérias – presentes na água e no solo – para fixar nutrientes. Isso seria uma possível explicação para que a água fresca dê melhores resultados do que a água esterilizada (seja em forno convencional ou de micro-ondas). Mas não vamos entrar nesse mérito, que não é o foco do post.

Retomando: a comunidade científica concorda que o micro-ondas, quando usado corretamente, é completamente seguro e dificilmente os alimentos nele aquecidos possam causar câncer ou qualquer um dos outros problemas mencionados no texto, como: danos cerebrais, disfunções hormonais e imunológicas, desnutrição e deficiências intelectuais. Sempre tem os espertinhos que falam algo do tipo: “então enfia sua cabeça lá e liga” – para esses, eu mando enfiar as respectivas numa panela com água fervendo ou na churrasqueira – é o mesmo efeito. Você é feito de água, e será aquecido até uma temperatura onde você irá se ferir (e, possivelmente, morrer). Simples assim. O negócio é que quem vai ser submetido às micro-ondas é o alimento, e não você.

O texto bate muito na tecla de que o micro-ondas gera compostos que não são metabolizados pelo organismo, e isso seria a fonte de todos os problemas alegados. Novamente, ele não gera nada muito diferente de qualquer outro tipo de aquecimento, mas tem ainda uma outra coisa: nós consumimos compostos que não podemos digerir o tempo todo! Um bom exemplo são as fibras, que encontramos com facilidade em saladas cruas, como alface. E elas não fazem mal à saúde, muito pelo contrário. Quer dizer, por mais que haja coisas que não podemos digerir que causem danos, essa generalização não funciona e nem é prerrogativa do micro-ondas.

Para finalizar, tem uma passagem bastante perturbante no texto que fala sobre uma enfermeira canadense que esquentou sangue no microondas antes de uma transfusão e o paciente acabou morrendo. Gente, mas é claro: o sangue contém células vivas e, quando você o esquenta muito (de qualquer maneira), elas morrem e a transfusão perde o propósito. Eu nem sei se essa estória é verdadeira ou não, mas nem preciso expressar como é infeliz a comparação entre algo que você come e digere e algo que você injeta na sua veia. Se a enfermeira desse o sangue fresquinho para ele beber, ele iria digerir as hemácias e também morreria. De várias maneiras distintas essa passagem não tem absolutamente nenhuma relação possível com alimentos aquecidos em micro-ondas.

*Só para deixar claro: eu também acho que comidas esquentadas no forno convencional são mais crocantes e saborosas do que as aquecidas no micro-ondas. O post não é sobre isso, mas sim sobre o experimento das plantas e os boatos de câncer e outras doenças relacionadas ao micro-ondas.

Atualização: aparentemente, existe uma versão da hoax que diz que o micro-ondas é proibido na Rússia. Tenho alguns amigos que moram lá, já visitei o país pessoalmente e posso atestar: ele NÃO é proibido. Ao que parece, ele foi proibido durante a guerra fria por se tratar de um símbolo do capitalismo, assim como vários outros artigos usados amplamente nos EUA, e não tem nada a ver com alegações de câncer.

 

Fontes:

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11 Comentários
  1. Texto muitíssimo bem fundamentado, seus argumentos são muito difíceis de refutar.
    Apesar de incisivo e direto, vc é ponderado nas conclusões, e toma cuidado com generalizações, o que é fundamental.

  2. AAh muito bom!!! Agora sim, eu fico mais tranquila!!!!

  3. Queiroz permalink

    Dá até raiva de ouvir umas asneiras desse tipo por aí.. e não adianta explicar: as pessoas continuam a duvidar

  4. Ótimo texto! Andei estudando na Universidade os efeitos do micro-ondas e não entendia quando pessoas de fora me diziam que fazia mal utilizá-lo pra aquecer os alimentos. Agora estou divulgando seu blog pro pessoal.

    • Pedro Menchik permalink

      Muito obrigado!
      Volte sempre e não deixe de visitar os outros posts

  5. João permalink

    Excelente post, muito bem explicado. ^^
    Eu só fiquei com uma duvida, procurei na internet mas não consegui nada muito conclusivo. Já li em vários lugares que a radiação do micro-ondas não é ionizante, mas oque me deixa curioso é o seguinte: Se por exemplo uma lampada fluorescente for colocada dentro do micro-ondas (não façam esse teste!) ela acende normalmente, como se tivesse sido ligada na tomada. Acredito eu que o motivo disso acontecer, é que micro-ondas seja capaz de criar plasma, ou seja, ionizar o gás no interior do tubo. Se isso acontece, porque não se pode dizer que seja uma radiação ionizante?
    Obrigado!

    • Pedro Menchik permalink

      Olá João,
      Não sou especialista nesse assunto, mas a nomenclatura “não-ionizante” se dá às ondas eletromagnéticas de frequência igual ou menor do que a luz visível, como o infravermelho, as micro-ondas, as ondas de rádio, etc. Já as ionizantes têm alta energia e maior frequência que a luz visível, incluindo ultravioleta, raios alfa, X e gama.
      Em relação às lâmpadas que acendem: as micro-ondas geram um campo eletromagnético variável dentro do equipamento, que promovem uma corrente elétrica induzida nos metais das lâmpadas. Dependendo da intensidade dessa corrente, ela pode “acender” a lâmpada.

  6. Sheyla permalink

    As ondas de micro são curtas (por isso micro ondas), porém de alta frequência (300MHz a mais).

    • Pedro Menchik permalink

      Oi Sheyla,
      Essa é uma confusão comum. Na verdade, o “micro” se refere à frequência, e o comprimento de onda da micro-onda é, na verdade, bem grande quando no contexto do espectro eletromagnético como um todo (só menor do que as ondas de rádio). Já a frequência das micro-ondas é bem pequena e menor que a do espectro visível ou mesmo que a do infravermelho.

  7. rafael araujo pereira permalink

    Quando falas sobre a comunidade científica… tem alguma referência de alguma publicação referente?

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