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Hambúrguer de Laboratório

14 de agosto de 2013

Recentemente, saiu nas mídias a notícia do primeiro hambúrguer de laboratório produzido e testado por cientistas holandeses. Vocês podem acompanhar alguns exemplos na íntegra nas fontes (ao final do post), vou colocar aqui um resuminho:

<< O hambúrguer é preparado a partir de células-troncos extraídas do músculo do pescoço de vacas adultas. Essas células são replicadas in vitro em meio de cultura nutritivo sob condições controladas, a fim de que se diferenciem em células musculares (ou seja, carne). Milhões de células são obtidas, formando pequenas tiras de carne bovina (~ 1cm x 1mm) que são agregadas e congeladas. Por causa da ausência do pigmento mioglobina (o qual dá a coloração vermelha no hambúrguer tradicional), esse agregado foi colorido com suco de beterraba antes de ser preparado. Também fizeram parte da receita algumas especiarias, como em todo hambúrguer.

Os cientistas acreditam que esse procedimento poderá ser, no futuro, um substituto interessante para a criação de bovinos, ajudando a solucionar o problema da fome no mundo. Lembrando que o processo evitaria problemas de bem-estar animal, podendo ser consumido inclusive por vegetarianos. Além disso, eles também ressaltam a questão ambiental, já que a alternativa consumiria menos energia e água, geraria menos gases estufa e, principalmente, diminuiria o avanço do desmatamento. O problema, por enquanto, é o custo: R$750 000 por hambúguer. >>

Imagem

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Ok, vamos lá. Inicialmente, queria mostrar meu respeito e minha admiração pelos cientistas da Universidade de Maastricht. Acho muito interessante que uma equipe tenha conseguido desenvolver uma tecnologia desse calibre, e fico imaginando o tempo e trabalho que isso deve ter levado. Provavelmente, essa pode ser a pioneira de muitas pesquisas envolvendo células-tronco voltadas para a ciência dos alimentos. Dito isso, gostaria de fazer algumas críticas e algumas reflexões sobre o tema.

Para mim, o argumento malthusiano para resolver a fome do mundo não funciona. Afinal, a produção mundial de alimentos é suficiente sim para suprir a demanda. Existem dois motivos, muito interligados, pelos quais existe tanta gente que passa fome: a má distribuição dos alimentos e o desperdício. Ou seja, não é produzindo mais comida – ou especificamente carne bovina –  nem deixando de comer carne (e nem substituindo-a por outra coisa) que resolveremos esse problema. A solução é aprender a transportar, armazenar, processar e consumir com consciência (aliás, isso também ajuda a resolver o problema do lixo). E, claro, garantindo que toda a população tenha acesso ao alimento produzido.

Por falar em alimentos acessíveis, R$750000 é, definitivamente, um preço inviável comercialmente, mesmo para os consumidores mais ricos. Quero dizer, se já está sendo difícil viabilizar o processo com células-tronco para produção de tecidos e órgãos para transplante, imaginem para produzir comida. Não sou profeta nem vidente, mas acho que mesmo daqui a 1000 anos o custo do hambúrguer de laboratório não será comparável ao da criação tradicional de bovinos. Mas eu posso estar errado.

Continuando: sobre a questão dos vegetarianos, perguntei para alguns amigos se eles experimentariam o produto. Uns disseram que sim e outros que não. O fato é que vários vegetarianos não consomem carne não apenas pela questão do bem-estar animal, mas também porque não gostam do sabor ou  acham que a carne faz mal à saúde. E mesmo para aqueles que inicialmente não tinham esse pensamento, após anos seguindo a dieta, a carne passa a ter sabor desagradável e pode causar mal-estar gastro-intestinal pela falta de costume do consumo. O fato o seguinte: o mercado do hambúrguer de laboratório para vegetarianos não é assim tão promissor.

Voltando à questão do bem-estar animal, gostaria de deixar bem claro que a maioria dos grandes abatedouros de gado bovino são extremamente limpos e modernos, nos quais os animais não passam por muito sofrimento (exceto para casos religiosos, como Kosher e Halal). O abate com pistola de ar é rápido e indolor, e a degola e sangria são feitas após a morte do animal. E isso não somente pela questão “humana”:  as carnes de animais que não passam por períodos de tensão (dor, medo, stress, etc.) costumam ser mais macias e saborosas – ou seja, o bem-estar animal gera um produto de melhor qualidade.

Nesse sentido, o hambúrguer de laboratório não parece apresentar tanta vantagem em relação ao tradicional, mesmo porque ele ainda depende da extração de matéria-prima do gado. Isso requer a existência de criação e abate, mesmo que em menor quantidades. Talvez, no futuro, seja possível tornar o processo auto-suficiente (independente da renovação da célula-tronco originária do animal), e então o argumento fará mais sentido. Já sobre a questão ambiental é difícil de medir: por um lado, um rebanho menor de fato polui menos, desmata menos e gasta menos recursos. Entretanto, não sabemos exatamente quantos recursos seriam gastos com o procedimento de laboratório aplicado em larga escala.

Por fim, gostaria de deixar uma última reflexão: qual hambúrguer não é de laboratório? Afinal, temos um gado geneticamente selecionado ao longo dos anos, o qual come uma ração desenvolvida em laboratório e toma vacinas e medicamentos fabricados em laboratórios. Sua carne é processada em equipamentos testados em laboratórios, adicionada de ingredientes e aditivos feitos em laboratório. Na minha opinião todo hambúrguer (e praticamente toda comida) é, de uma certa forma, feito em laboratório. E o mais legal: não há absolutamente nenhum problema nisso.

Fontes:

– Notícias sobre o hambúrguer de laboratório: http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2013/06/1288236-hamburguer-com-carne-de-laboratorio-custa-us-325-mil.shtml ; http://noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/bbc/2013/08/05/cientistas-produzem-primeiro-hamburguer-de-laboratorio.htm

 

PS: Esse post me lembrou um pouquinho da hoax do hambúrguer feito de fezes humanas: https://alimentandoadiscussao.wordpress.com/2013/05/17/hamburguer-feito-de-fezes-humanas/

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7 Comentários
  1. Jaqueline Azevedo permalink

    Adorei o artigo parabéns !

  2. O argumento de resolver a fome no mundo é o mais comum para fazer as pessoas aceitarem algumas coisas. Como foi o caso dos transgênicos, por exemplo. As empresas disseram que os transgênicos foram criados para acabar com a fome do mundo, mas tais empresas estão realmente interessadas nos lucros gerados pela alta produtividade dos organismos geneticamente modificados. O discurso é um e o objetivo prático é outro.
    E, como vc disse, a fome no planeta está ligada a questões como o desperdício e a má distribuição de alimento. Essa má distribuição de alimento é fruto da má distribuição de renda, tanto entre países quanto entre pessoas. Alguns podem comprar os alimentos, alguns não. Eu diria que o problema é mais econômico/social do que de produção.

  3. Ingrid Oliveira permalink

    Na verdade a pistola de ar causa concussão cerebral e dessensibiliza o animal, mas ele continua vivo. É necessário que o coração esteja batendo para a sangria.

    http://www.crq4.org.br/downloads/abate.pdf

    Parabéns pelo blog!

    • Obrigado pela correção, Ingrid!
      Eu achava que os animais sofriam morte cerebral após a pistola de ar… Mas o fato que quis expor é que eles não sentem dor no ato da degola e da sangria

  4. Aline permalink

    Olá. Sou veterinária e tenho algum conhecimento em Inspeção de produtos de origem animal. Na verdade, o Brasil está longe de ter abatedouros que seguem à risca as normas estabelecidas para que o produto tenha SIF (Selo de Inpesção Federal). A questão é que, poquissimos abatedouros seguem as normas, até mesmo os que possuem SIF. Tendo dentro deles profissionais (Veterinários) que muitas vezes fazem “vista grossa” para muitos erros dentro desses estabelecimentos. Claro que existem poucas excessões. Não vamos crer nesse conto de fadas de que os animais passam por esse processo de forma indolor. Muitos deles vão para a área de sangria totalmente conscientes e isso não pára engrenagem. Enfim, não sou vegetariana, mas tenho uma boa noção do que realmente acontece em matadouros. Abcs

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