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Chocolate com Pedaços de Barata

7 de março de 2013

Ano passado, na época da páscoa, havia uma notícia correndo nas redes sociais que o chocolate que consumíamos possuía pedaços de barata. Resolvi aproveitar que essa época está chegando novamente para comentar o caso no meu blog. Segue o texto:

<< A ideia não é estragar a sua Páscoa, mas achamos que você deveria saber: uma barra de chocolate comum contém, em média, 8 pedaços de baratas, segundo a Food and Drugs Administration (FDA), o órgão que faz o controle dos alimentos e remédios lá nos EUA.

Elas não fazem parte da receita, é claro — a contaminação acontece durante o armazenamento e o transporte do chocolate. Pescamos essa informação saborosa em uma reportagem da ABCNews, que conta como cientistas acham que esse ingrediente extra, os tais pedacinhos de baratas, pode ser o responsável por causar coceira, irritação e cãibras em pessoas que, aparentemente, são alérgicas a chocolate — e não o doce em si.

Mas calma. Para a FDA, até então, desde que não haja mais do que 60 pedaços de baratas em cada 100 g de chocolate, está tudo bem e a gente pode se esbaldar. E nem adianta fazer o radical e querer abolir o chocolate da sua vida: vários outros alimentos estão sujeitos à mesma contaminação, como frutas e queijos. <Evitar [insetos na comida] é quase impossível. Você provavelmente teria que parar de comer>, disse o alergista Morton M. Teich ao portal. >>

barata_choc

………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………….

Ok, vamos começar. Esse texto foi baseado numa notícia da ABC (http://abcnews.go.com/blogs/lifestyle/2012/03/bugging-out-chocolate-allergy-linked-to-roaches/), então ele se apóia na legislação dos EUA. O FDA (2000) diz ser permitido encontrar no máximo 60 fragmentos de insetos em geral (não apenas baratas – voltarei a isso daqui a pouco) em 100g de chocolate, tomando a média entre 6 amostras diferentes, sendo que nenhuma delas pode ter mais de 90 fragmentos. Quando comparamos com a legislação brasileira, a ANVISA (2011) se mostra bem menos permissiva – o que é um caso raro – já que permite apenas 10 fragmentos de insetos não indicativos de risco por 100g. Vale lembrar que essa legislação do FDA é antiga e já deveria ter sido revisada.

Além do número em si, existe outra diferença relevante entre as duas. A mesma determinação da ANVISA tem duas definições diferentes referentes a insetos:

– Art 4º  X – matérias estranhas indicativas de riscos à saúde humana: são aquelas detectadas macroscopicamente e/ou microscopicamente capazes de veicular para os alimentos agentes patogênicos ou de causar danos ao consumidor, abrangendo: a) insetos: baratas, formigas, moscas […]

– Art 4º  XI – matérias estranhas indicativas de falhas das Boas Práticas: são aquelas detectadas macroscopicamente e/ou microscopicamente, abrangendo: a) artrópodes considerados próprios da cultura e do armazenamento, em qualquer fase de desenvolvimento, […]

Conseguiram perceber a diferença? Como a ANVISA permite apenas fragmentos de insetos do segundo caso mencionado, temos que fazer a seguinte pergunta: As baratas são autóctones (= nativas) da própria cultura do cacau? Se vocês lerem a noticia da ABC, vão perceber que eles respondem à questão afirmativamente, o que é um erro grave. Os insetos que agem como pragas mais comuns da cultura do cacau são a chupança (espécie de barbeiro), a tripes, as lagartas, as vaquinhas (tipo de besouro amarelo), os pulgões e as formigas. Já as baratas mais comuns (ordem Blattaria) são pragas urbanas, e não estão inclusas nessa lista. Sendo assim, não deveria haver nenhum fragmento de barata nos chocolates, segundo a legislação brasileira.

Mas é possível/viável fazer esse controle? Infelizmente, a resposta é não: por mais que as empresas possam eliminar facilmente insetos inteiros e/ou pedaços grandes, não têm meios de identificar fragmentos microscópios, já que essa análise iria requerer muito tempo e elevado custo (imaginem fazer um teste de DNA para diversos insetos em cada lote!). Dessa forma, cabe a elas assegurarem boas práticas de fabricação, higiene e segurança para evitar esse tipo de contaminação.

Como o próprio texto diz, é praticamente impossível comer qualquer tipo de alimento sem ingerir partes de insetos, por melhor que seja a higiene de toda a sua cadeia produtiva. Na verdade, ingerimos partes de insetos pelo simples ato de respirar. Ok, mas e os potenciais riscos à saúde? Mesmo as pragas nativas da cultura não seriam perigosas?  É fato que muitos artrópodes podem ser vetores de doenças, mas é preciso lembrar que esses serão processados – de preferência termicamente – junto com o alimento, reduzindo sua carga microbiana até um patamar seguro para o consumo (afinal os micro-organismos patógenos, esses sim, podem ser facilmente analisados e controlados). O que não pode ocorrer é a contaminação por insetos após esse processamento.

O verdadeiro risco – e dessa vez a reportagem está correta – é de algumas pessoas manifestarem alergia a certos fragmentos de insetos contidos no produto, e pensar que se trata do próprio alimento. Nesse caso é importante consultar um médico para descobrir qual a verdadeira causa da alergia. Por outro lado, se você não apresenta nenhum tipo de sintoma típico (irritação, urticária, enxaqueca, asma, etc) ao consumir determinado alimento, não há necessidade nenhuma de parar de consumí-lo – mesmo que potencialmente contenha “pedacinhos” de insetos.

Fontes:

– FDA: http://www.fda.gov/ICECI/ComplianceManuals/CompliancePolicyGuidanceManual/ucm074443.htm

– Anvisa: http://www.abic.com.br/publique/media/LEG_ConsultaPublica_11-2011.pdf

– Sobre as pragas do cacau: http://www.seagri.ba.gov.br/cacau1.htm

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